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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Farol

Novembro 05, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração Barry Ross Smith

 

 

Em cima do farol branco.

Um dos meus ouvidos ouve o mar,

sua voz e seu clamor.

 

O mar devolve tudo que não vale,

tudo ruim, ficando com o bom,

com coisas que o enobreça.

O meu ouvido ouve os peixes, as algas,

o tubarão que comeu a perna do pescador.

 

O outro ouvido meu ouve, sente

o vento, que fala bem perto.

O vento emociona, toca, e vai embora,

levando uma parte de mim,

da minha poesia e emoção.

Eu sei que fui com o vento.

 

Os meus olhos escuros misteriosamente ouvem

o cantar dos bem-te-vis e dos pardais defronte.

Eles ouvem, vêem Deus.

 

Os meus olhos claros vêem tudo:

o mar verde-azul, as ondas beijando a praia,

as pedras, os barcos de pescadores brincando.

O vento, perto, movimentando as areias das dunas,

os coqueiros, os pássaros, os montes,

e o sol criança

 

E vê meu amigo abaixo de mim.

Olhando de pé tudo isso, mas da forma dele,

com outro olhar e emoção.

 

 

Poema de Francisco Carlos Machado

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

Tamanho S

Outubro 20, 2017

Alice Alfazema

O meu cão, não vai à escola 
Não sabe ler, mas tem educação
Conheço pessoas analfabetas
Pessoas de baixa condição 
Que até são mais educadas
Do que aquelas que lá vão


O meu cão, vive na barraca
Como vive qualquer cão
Há pessoas a viver em barracas
Tantas, que até mete impressão
Fazem as casas para os outros 
Mas só para si…é que não

 

 

IMG_9785.JPG

 

 

O meu cão, não tem carro
Telemóvel ou televisão
Coisa que toda a gente tem 
Símbolos da nossa civilização
Todos a imitarem todos
Mesmo que em casa, falte o pão 


O meu cão, não trabalha 
Vive daquilo que lhe dão
Como muitos desempregados
Que vivem em exclusão
São novos para a reforma
Mas não arranjam patrão


O meu cão, não vota 
Em nenhuma eleição
Não acredita em promessas
Como qualquer cidadão
Gosta mais duma soneca
E faz parte, da abstenção

 

 

 

IMG_9819.JPG

 

 

O meu cão, não separa o lixo
Nem sabe o que é poluição
Também conheço pessoas
Que não fazem a separação
Deitam o lixo todo misturado
E até cospem para o chão


O meu cão, não é mentiroso
E nunca morde à traição
É um leal e fiel amigo 
Como poucos homens são
Quanto mais conheço os homens
Mais amigo sou, do meu cão

 

 

 

IMG_9787.JPG

 

 

O meu cão, não é rico 
Mas é um rico cão 
Gosta dos ricos e dos pobres 
Sem qualquer distinção
Tão diferente dos homens
Que fazem discriminação


É tanta a coincidência 
Que até faz confusão 
Haver homens a viver 
Tal e qual, o meu cão 
Responda quem souber 
Quem leva, vida de cão?

 

 

 

 

Poema de António Silva

 

 

 

 

Alice Alfazema 

Menina e moça

Outubro 05, 2017

Alice Alfazema

campo pequeno.jpg

 

No castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama, descanso o olhar
E assim desfaz-se o novelo
De azul e mar

 

 

À ribeira encosto a cabeça
A almofada, na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo

 

 

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

 

 

Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

 

 

No terreiro eu passo por ti
Mas da graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua

 

 

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar

 

 

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

 

 

Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

 

 

Lisboa no meu amor, deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

 

 

 

 

Poema de José Carlos Ary dos Santos e música Paulo de Carvalho

 

E agora em português do Brasil, com Martinho da Vila, oba sambando Lisboa:

 

 

 

Alice Alfazema

 

Bom dia! Eis o que tenho para vos mostrar hoje...

Outubro 03, 2017

Alice Alfazema

dar e receber.JPG

 

Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

 


Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

 

 

 

Alice Alfazema

Lua cheia

Setembro 07, 2017

Alice Alfazema

 Ilustração Simone Rea

 

 

Quando o céu todo se enfeita.
Para uma paz satisfeita
E o mundo inteiro se deita
Nos braços da escuridão,
Aparece a lua cheia,
A fulgurante candeia
Que pelo espaço vagueia,
Clareando a imensidão!

 



Sutil e cariciosa,
Dentro da nuvem garbosa,
Ela se eleva ditosa,
Num soberbo alumbramento!
É o espelho da beleza,
Refletindo a natureza,
No seu trono de princesa
Do salão do firmamento!

 



O céu – lindos alabastros!
Vive marcado de rastros
Da enamorada dos astros
E poetisa do azul!
Quando ela passa sombria,
Distribuindo alegria
E recitando poesia
Para o Cruzeiro do Sul!

 

 


E na sua claridade
Que há tanta serenidade,
Existe a sublimidade
Da transparência de um véu...
A lua que algo retrata,
Jogando luz sobre a mata,
Parece um olho de prata
No rosto imenso do céu!


 

 

Jansen Filho

 

 

 

Alice Alfazema

Para além dos livros azuis para menino e dos livros rosa para menina

Agosto 26, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração  Prudence Flint

 

Quando um homem me diz
Que eu sou bonita
Eu não acredito.
Ao invés disso, eu revivo os meus dias no colégio
Onde não importava o quão boa eu fosse
Eu sempre era a menina de bigode

 

Ele não sabe o que é
Crescer com a sua família materna
Quando o seu corpo é o único
Que com orgulho mostra o [cromossomo] X do seu pai
Enquanto o X da sua mãe fica de lado e sente pena
Da sua falta de atitude feminina

 

Ele não conhece a adolescente
Que encheu os seus cantos com
Consolos vazios de
Ser amada por quem ela era – algum dia.
Ele não conhece a hipocrisia.

 

Ele não sabe do mundo que
Diz para você ser ‘você mesma’
E te vende justo e adorável cartão de vergonha
Ao mesmo tempo

 

Ele não sabe da cera quente e do laser
Cujo único propósito é
Substituir a nossa pele inocente
Com a sua própria marca de feminilidade

 

Ele não sabe do descolorante
Que desenraiza o seu robusto cabelo
Em nome da higiene
Higiene que, quando seguida pelos homens,
Faz deles gays e nada masculinos.

 

Ele não sabe como domar as sobrancelhas espessas
E como as monocelhas morrem silenciosamente
Tudo para preservar a beleza
E dos torturantes milagres que acontecem
Dentro das portas marcadas com
SÓ MULHERES

 

Então quando um homem diz que eu sou bonita
Eu lhe dou um sorriso. Um sorriso que fica
Depois de tudo que as faixas arrancaram
E eu o desafio
A esperar
Até os meus pelos crescerem de novo.

 

 

 

Poema de Naina Katarina

 

 

Alice Alfazema 

 

 

Paixão

Agosto 24, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração Pierre-Emmanuel Lyet

 

 

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente

 

 

Herberto Helder

 

 

Alice Alfazema

Bom dia ;)

Julho 20, 2017

Alice Alfazema

galo.jpg

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

 

 

Poema de João Cabral de Melo Neto

 

 

 

Alice Alfazema

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