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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Bom dia ;)

galo.jpg

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

 

 

Poema de João Cabral de Melo Neto

 

 

 

Alice Alfazema

Objecto estranho não identificado

marco do correio.JPG

 

Querida mãe, querido pai. Então que tal? 
Nós andamos do jeito que Deus quer 
Entre dias que passam menos mal 
Lá vem um que nos dá mais que fazer 

Mas falemos de coisas bem melhores 
A Laurinda faz vestidos por medida 
O rapaz estuda nos computadores 
Dizem que é um emprego com saída 

Cá chegou direitinha a encomenda 
Pelo "expresso" que parou na Piedade 
Pão de trigo e linguiça pra merenda 
Sempre dá para enganar a saudade 

Espero que não demorem a mandar 
Novidade na volta do correio 
A ribeira corre bem ou vai secar? 
Como estão as oliveiras de "candeio"? 

Já não tenho mais assunto pra escrever 
Cumprimentos ao nosso pessoal 
Um abraço deste que tanto vos quer 
Sou capaz de ir aí pelo Natal

 

 

Poema de Rui Veloso

 

 

 

Para ouvir a música clique aqui.

 

 

 

Alice Alfazema

Amar

olha.jpg

 

 

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

 

 

 

 

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

 

 

 

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...

 

 

 

 

 
 

In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 

 
 
 
 
 
Alice Alfazema

Piano por dentro e por fora

piano.JPG

 

 

A música, sim a música...

Piano banal do outro andar.

A música em todo o caso, a música..

Aquilo que vem buscar o choro imanenre

De toda a criatura humana

Aquilo que vem torturar a calma

Com o desejo duma calma melhor...

A música... Um piano lá em cima

Com alguém que o toca mal.

Mas é música...

 

Ah quantas infâncias tive!

Quantas boas mágoas?,

A música...

Quantas mais boas mágoas!

Sempre a música...

O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.

Mas apesar de tudo é música.

 

Ah, lá conseguiu uma música seguida —

Uma melodia racional —

Racional, meu Deus!

Como se alguma coisa fosse racional!

Que novas paisagens de um piano mal tocado?

A música!... A música...!

 

 

Alice Alfazema

Azul e azulinho

 

Ilustração  Kamilė Krasauskaitė

 

 

O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

Clique aqui para ouvir este maravilhoso poema na voz de Maria Bethânia.

 

 

Alice Alfazema

 

 

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