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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Em prol dos outros

Novembro 29, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração  Christine Griffin

 

 

Fico muitas vezes a pensar no que é ser voluntário, ou fazer voluntariado. Dá-se muito apreço a quem faça voluntariado, é bom para o currículo, dizem-me. Dá diploma e prestigio.

 

Neste momento estou a ouvir o contrabaixo do andar de cima, a miúda dá à borla sessões de música para o andar de baixo. Agradeço-lhe, gosto de a ouvir, aquela música escorre-me pelas paredes e dá alento aos meus neurónios, e nem preciso de sair do meu sofá. 

 

Geralmente o voluntariado está associado a grandes causas, às calamidades, aos centros de refugiados, aos hospitais, mas também podemos encontrá-lo em pequenos gestos do nosso dia-a-dia:

Naquele senhor que te diz bom dia sem te conhecer. Nos que te sorriem espontaneamente mesmo sem precisarem de nada. Na tua vizinha que alimenta os pardais da rua com o pão que lhe sobra. Nos músicos das bandas filarmónicas que passam horas em ensaios e depois dão espectáculos à borla. Na mulher que planta flores num espaço público. Nas pessoas que falam com os sem-abrigo quando vão a caminho do trabalho. Naquele jovem que vai de transporte público a ouvir alguém que precisa desabafar. No motorista que abranda a marcha para alguém que vem a correr para entrar no autocarro. Naquele que se levanta para te dar lugar. No que deu um cigarro ao que está a pedir moedas. Naquele que crítica de forma positiva. E todos os outros que partilham conhecimento sem pedir nada em troca.

 

 

 

Isto é mais ou menos aquilo que eu estava a ouvir.

 

Boa noite.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

O que são os deveres humanos?

Novembro 27, 2017

Alice Alfazema

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Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. 


Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? 


Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. 


Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. 

 



José Saramago, in Diálogos com José Saramago

 

 

 

Alice Alfazema

 

Um detalhe importante

Novembro 01, 2017

Alice Alfazema

 

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Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de vida e isso é um erro. Ao contrário, existem muitos outros tipos de morte, e se faz necessário morrer todo dia um pouco. Caso isso não aconteça, ficamos estacionados, parados num ponto, enquanto o restante do universo continua caminhando, mesmo que lentamente.

A morte é ainda mais do que uma passagem, é a indicação de transformação.
 

 



Se a semente não morrer, para dar lugar a árvore, os frutos e as flores não existiriam. 

E o que é mais importante, e que mostra o real sentido da criação? A semente, ou os frutos advindos dela?
Para que um embrião inicie sua jornada, é necessária a morte do espermatozóide e do óvulo fecundado por ele. Caso eles não morressem, o embrião não teria a possibilidade de ser gerado.
 

 

 



Para que as borboletas surjam, é necessário que a lagarta se enclausure e morra, no sentido da transformação.

A morte simboliza o ponto inicial de algo que surge, como se fosse um portal que liga o passado ao futuro. E o que está entre o passado e o futuro é o nosso presente. 

Assim, nesse sentido, a morte é um presente. Não é fantástico?
 

 



Quando ainda bebés, morremos para o embrião dependente, que morre para a criança inocente, que morre para o confuso adolescente, que morre para o jovem adulto, que certamente morre para que o adulto, o veterano e o ancião reapareçam.

E o ancião, no fantástico jogo da vida, dá seu lugar ao novo, partindo em direcção às estrelas, deixando de vez o seu veículo estacionado aqui nesse planeta.
 

 



Pensando assim, devemos deixar morrer o inseguro, o ciumento, o ignorante, para que nasça um novo homem, que sabe compartilhar, de forma inteligente, seus sentimentos mais puros e subtis.

Seu relacionamento não anda bem? 

Dê chance para que um novo surja, mesmo que seja com as mesmas pilastras, mas de uma forma mais interessante.

Para que insistir no comodismo? 

Mate-o, e seja feliz!
 

 



Se tivermos medo das mortes em nossa vida, corremos o risco de ficar no passado, já sabido e vivido, abrindo mão de um futuro que nos aguarda, ansioso, próspero, e cheio de caminhos a percorrer. E com um detalhe importante: novos caminhos, novos desafios e novas oportunidades!

É necessário, todavia, que não matemos nossas virtudes de crianças (inocência, sorriso nos lábios, criatividade e energia), mas como adultos, devemos matar os vícios da infantilidade (ou melhor dizendo, imaturidades).
 

 



É aí que está a grande sacada: devemos aproveitar aquilo que cada fase nos oferece de bom, para que sejamos completamente felizes e actualizados, descartando os lixos que já não nos servem mais, as muletas e as desculpas.

Então, o que você está esperando para matar o antigo, em si mesmo, ainda hoje, para que nasça o ser que você tanto deseja ser? 

Pense nisso, e morra... E se transforme.

Mas, não esqueça de nascer melhor ainda...


 
 
 
 
Fernando Golfar
 
 
 

 

 

 
 
 
 
Alice Alfazema

As pessoas discutem mais as ideias para transformar o mundo ou os preços dos produtos que acumulam?

Outubro 28, 2017

Alice Alfazema

 

Qual é a primeira coisa que deve fazer quem começa a filosofar? Rejeitar a presunção de saber. De facto, não é possível começar a aprender aquilo que se presume saber.

 

Epicteto

 

 

 

Pluralidade que não se reduz à unidade é confusão; unidade que não depende de pluralidade é tirania.

 

Blaise Pascal

 

 

Uma vida inútil é uma morte prematura.

 

Johann Wolfgang Von Goethe

 

 

 

Se não foste feliz quando jovem, certamente que tens agora tempo para o ser.

 

Simone de Beauvoir

 

 

Quem representa Deus no Feminismo de Hoje?

 

Julia Kristeva

 

 

 Se quisermos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.

 

Mahatma Gandhi

 

 

 

 

As ilustrações são de Sarah Jarrett

 

 

 

Alice Alfazema

 

Porque merece a pena estar neste mundo

Outubro 10, 2017

Alice Alfazema

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Podemos viver cada dia igual, um atrás do outro, ou um à frente do outro, que não existe impedimento para que tal não aconteça, podemos viver de forma positiva ou negativa. Queixarmo-nos do que temos e do que não temos. Entretanto o aceitar, o baixar os braços, o ignorar está ao alcance de qualquer um. Não exige esforço, nem atenção, nem sequer inteligência. 

 

A atitude perante a vida é o que nos define e é aí que colhemos os frutos dos nossos dias. 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

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