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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Março dia 20 - Mulheres costureiras

Março 20, 2017

Alice Alfazema

Todos os dias vestimos roupas, ajeitamos casacos, dobramos camisas, lavamos lençóis e pomos toalhas de pano na mesa onde vamos jantar. Ali no meio do pano há pespontos, ziguezagues, há linhas de muitas cores.

 

 

 

Abotoamos os botões, metemos as chaves nos bolsos e dormimos em lençóis macios.

 

 

 

Vincamos as mangas das camisas com vapor quente, ajeitamos as golas e os punhos.

 

 

Vestimos as calças e vemo-nos ao espelho. São lindas. São azuis. E macias.

 

 

Que mãos terão costurado aqueles bolsos onde aqueço as minhas mãos quando tenho frio? 

 

 

De que cor é a pele de quem me costurou a minha manta preferida?

 

 

Quantos anos têm as roupas que tenho guardadas no meu roupeiro? Será que atravessaram oceanos? Vieram de um país africano ou asiático? De onde vieram? Quem as fez ainda estará vivo? Será feliz? 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

Frio

Fevereiro 17, 2016

Alice Alfazema

 

Ilustração  Fred Calleri

 

 

E olho as miúdas sem frio, com decotes de Agosto, belas e roxas desfilam em calções curtinhos. Não há frio que lhes trespasse a pele. E eles com os nós dos dedos esbranquiçados, de camisa de manga curta vestida, com luvas e cachecol, às vezes gorro. Dizem alegres - Não tenho frio! Não tenho frio! Entretanto limpo o nariz com um daqueles lenços com mentol, ponho-o na algibeira, onde já moram outros. Espirro mais uma vez! Tenho os neurónios congelados! Quero o Verão! 

 

 

Alice Alfazema

 

 

Isto é um desfile de moda

Setembro 19, 2015

Alice Alfazema

 

Os modelos estão perfeitamente enquadrados no mundo actual, onde se valorizam as caras trombudas, os ossos, a apatia. As cores utilizadas estão, também, bem escolhidas, fazem lembrar os vários cenários de guerra que se vivem em diversas partes do planeta. Muito ousado, sem dúvida. Inspirado provavelmente num telejornal qualquer. 

 

Fotografia daqui.

 

 

Alice Alfazema

Gravidezes adiadas

Junho 19, 2014

Alice Alfazema

 

Ilustração Kai Pannen

 

E assim alguém denunciou que algumas empresas andam por aí, neste nosso país ainda sumariamente patriarcal, a obrigar as mulheres a assinar papéis em que devem de adiar gravidezes indesejadas empresarialmente. Durante um dia, enquanto a notícia esteve na página de jornais, as vozes soaram indignadas, depois calam-se, como se as notícias fossem assim um prato de cereais com leite que se acaba quando se come e se fica satisfeito. Fico a pensar quantos factores serão ignorados neste prato de cereais? 

 

Ainda há poucos anos tínhamos horários que nos proporcionavam momentos familiares, tão importantes para o crescimento saudável e emocional de uma criança. Hoje cada vez mais crianças estão em casa sozinhas, presumo que não seja necessário demonstrar em estudo o que isso significa, basta por uma pequena quantidade de massa cinzenta a funcionar, neste momento tenho dúvidas da cor... 

 

Continuando com a teoria dos cereais, onde trabalham as mulheres em Portugal, a grande maioria no sector primário, baixos salários, horários de merda, fins de semana incluídos, acrescentemos-lhes as tarefas domésticas que ainda constituem um legado patriarcal em muitos lares. 

 

São estas empresas o cerne desta questão?  Ou será toda uma sociedade desinteressada pelo outro? Baseada em legados mais morosos que a Monarquia, estamos assim como numa questão de sobrevivência entre o ser e o ter.

 

É claro que para uma pequena camada da população isto não quererá dizer nada, existe liberdade de actuar de ser e de estar, mas para tal existem também outros factores que são cruciais à sobrevivência de um país, não apenas a economia, a produção, mas e também a motivação emocional que pretende fazer de nós seres iguais em liberdade de escolhas. Uma mais um são matematicamente dois, mas podem ser três se os factores forem diferentes. 

 

A certeza de tudo é um mal que nos assola, que não podemos fazer diferente, a questão de ser tudo matematicamente possível é-nos caríssimo para que estejamos bem cotados em tudo o que é mercado, importância vital para a morte ou para a vida?

 

Restará interesse em ludibriar esta questão, como se ela se resumisse a meras empresas, quando todos sabemos que também o Estado contribui para a cultura de gravidezes indesejadas, cuspimos para o ar e ficamos a ver se vem vento a favor. Ficamos indignados por um dia, nem mais, porque o tempo urge, temos que caminhar, caminhar como se o tempo retornasse a outra época, mas agora numa de escravidão psicossomática.

 

 

 

Alice Alfazema

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