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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Precários do Estado, onde, quando e como?

Novembro 15, 2017

Alice Alfazema

Vou-vos aqui dar um exemplo de como é ser precário no Estado com um contrato de trabalho, atenção, vou começar:

 

 

Caracterização do posto de trabalho - Os postos de trabalho a ocupar caracterizam-se pelo exercício de funções correspondentes à categoria de assistente operacional, tal como descrito no Anexo referido no n.º 2 do artigo 88.º da LTFP e de acordo com as atividades inerentes às de auxiliar de ação educativa de acordo com o seguinte perfil de competências:

 

a) Exercer as tarefas de atendimento e encaminhamento dos utilizadores das escolas e controlar as entradas e saídas da escola;

 

b) Prestar informações, utilizar equipamentos de comunicação, incluindo estabelecer ligações telefónicas, receber e transmitir mensagens;

 

c) Providenciar a limpeza, arrumação, conservação e boa utilização das instalações, bem como do material e equipamento didático e informático necessário ao desenvolvimento do processo educativo;

 

d) Exercer atividades de apoio aos serviços de ação social escolar, laboratórios, refeitório, bar e bibliotecas escolares de modo a permitir o seu normal funcionamento;

 

e) Reproduzir documentos com utilização de equipamento próprio, assegurando a sua manutenção e gestão de stocks necessários ao seu funcionamento;

 

f) Participar com os docentes no acompanhamento das crianças e jovens com vista a assegurar um bom ambiente educativo;

 

g) Cooperar nas atividades que visem a segurança de crianças e jovens na escola;

 

h) Prestar apoio e assistência em situações de primeiros socorros e, em caso de necessidade, acompanhar a criança ou o aluno à unidade de prestação de cuidados de saúde;

 

i) Efetuar, no interior e exterior, tarefas de apoio de modo a permitir o normal funcionamento dos serviços.

 

 

Posicionamento remuneratório - O posicionamento remuneratório será efetuado nos termos do artigo 42.º da Lei n.º 82-B/2014, de 31 de dezembro, que foi prorrogado por força do n.º 1 do artigo 19.º da Lei n.º 42/2016, de 28 de dezembro e terá lugar imediatamente após o termo do procedimento concursal comum, correspondendo ao 2.º nível remuneratório da tabela remuneratória única (€ 557,00).

 

 

 

 

 

Estou aqui a pensar qual será o 1º nível remuneratório, aceitam-se esclarecimentos. 

 

a) Quanto ganha um recepcionista que seja ao mesmo tempo um segurança, vigilante e responsável por determinado espaço, não só um espaço físico, mas também responsável pelo que possa acontecer a menores e crianças?

 

b) Quanto ganha uma pessoa que esteja responsável pelo atendimento telefónico, transmita e preste informações que são relevantes para o bom funcionamento da equipa de trabalho?

 

c) Quanto ganha aquela pessoa que limpa, providência a limpeza, arrumação, conservação e boa utilização das instalações, bem como do material e equipamento didáctico e informático necessário ao desenvolvimento do processo educativo?

 

d) Quanto ganha alguém que saiba exercer actividades em variados sítios incluindo, acção social escolar, laboratórios, bar e bibliotecas escolares?

 

f) Quanto ganha quem faz a reprodução de todos os documentos e assegura a manutenção do equipamento e a gestão dos stocks?

 

g) Quanto ganha quem coopera nas actividades que visem a segurança de crianças e jovens na escola?

 

h) Quanto ganha quem presta primeiros socorros, mede a febre, desinfecta feridas, acalma a criança, e acompanha-a se necessário ao hospital?

 

i) Quanto ganha quem é pau para toda a obra, num trabalho que se diz de - não especializado.

 

 

Faltou-me também falar na mediação de conflitos, mas como sabem quando há muitas crianças juntas isso é raro acontecer, talvez por isso não esteja estipulado nas nossas competências. Nem as competência para lidar com alunos com necessidades educativas especiais, ou até saber medir e dar a insulina, ou de como se lida com o autismo, uma de entre outras perturbações do desenvolvimento, que proliferam nas escolas. E assim por último ser precário no Estado também é usufruir deste anedótico salário que pode perdurar no tempo, no meu caso mais de uma década. 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conversas da escola - Reunião proveitosa

Novembro 01, 2017

Alice Alfazema

- Os pais na reunião falaram sobre o horário do bar, querem que o bar abra às oito, porque não têm tempo de dar o pequeno-almoço aos miúdos.

-  E sobre o número de funcionários não falaram? Não perguntaram quantos somos? Blá, blá, blá...

-  Não...falaram também que o edifício está velho...blá, blá, blá...

 

 

 

 

Alice Alfazema

Queridas matrículas

Junho 26, 2017

Alice Alfazema

Todos os anos é a mesma coisa, nós pais que temos gente a frequentar o ensino escolar obrigatório, preenchemos papéis e mais papéis, no acto anual de matrícula ou renovação de matrícula. Papéis com informações repetidas ano após ano. Todos os anos me faço a mesma pergunta, para que serve isto? Resposta sempre actual: porque sim.

 

Ora se um aluno vai frequentar um ciclo escolar obrigatório, seja ele de quatro anos, dois ou três anos, porque tem todos os anos de renovar a matrícula? Dar o nome dos pais. Os pais mudam ano a ano? A naturalidade. Pode-se nascer várias vezes durante a mesma vida? A ficha médica. A do ano passado deixou de ter validade? E passamos a ter outros números de beneficiários?

 

Será que os papéis do ano passado são usados para as fogueiras dos Santos populares? Ou o peso dos processos que andam de escola em escola valem ouro para os CTT?

 

 

 

Alice Alfazema

Porque vou fazer greve dia 26 de Maio?

Maio 23, 2017

Alice Alfazema

Lembro-me de ter começado a trabalhar com um horário semanal de quarenta e cinco horas, de termos menos dias de férias, de haver uma ausência de muitos direitos que agora usufruímos. Os tais que damos hoje como de adquiridos e consagrados na lei. Esquecem-se que foi através da garra de muitos trabalhadores e do seu salário que tal foi possível. 

 

Recordo-me de que os chefes raramente faziam uma greve, havia no entanto excepções, sabíamos que tinham um lugar e certos privilégios a defender, sabíamos que tinham medo de os perder. As pessoas viam-se a si mesmas como algo de valor, mas faziam-no no colectivo. Lutavam como uma comunidade, tinham o objectivo do bem comum.

 

Dia 26 de Maio está marcada uma greve nacional da função pública, faço parte desses que têm emprego para toda  a vida, como leio em tantos sítios, ganho no entanto o ordenado mínimo nacional, vai para doze anos, nunca fui aumentada, nunca tive prémios de produção ou de mérito, tenho apenas um contrato de trabalho, onde cumpro o meu horário e faço por dar o meu melhor, todos os dias. 

 

Porque vou fazer greve no dia 26 de Maio? Vou fazê-lo porque nunca progredi na carreira, porque quero um salário digno, ninguém vive com dignidade com aquilo que me pagam. E poderão argumentar que são tempos de crise, que há quem não tenha emprego, e que as greves são formas de luta ultrapassadas. Mas como fazemos chegar a nossa voz, se não a juntarmos em uníssono? Se não lutarmos para o bem comum somos estéreis. Pensamos que as nossas acções apenas nos pertencem, não é verdade. O futuro desenha-se todos os dias e ele deve ser global, não apenas de alguns.

 

 

Alice Alfazema 

 

 

Entrevista à Dona Alicinha Contina

Setembro 08, 2016

Alice Alfazema

Com o aproximar galopante do começo deste ano lectivo decidi entrevistar a Dona Alicinha Contina para compreendermos um pouco desse mundo desconhecido que é o mundo das Continas.

 

 Ó Dona Alicinha, diga-nos lá há quanto tempo trabalha como contina?

 

 Eu trabalho para o Ministério da Educação há dez anos.

 

E gosta daquilo que faz?

 

Sim.

 

O que mais gosta no seu trabalho Dona Alicinha?

 

Gosto da pluralidade de tarefas que faço durante o dia, por exemplo tanto posso prestar primeiros socorros como varrer uma sala ou limpar um vómito, posso ainda resolver um conflito existente entre alunos, também já arranquei dentes.

 

E durante o período de férias dos alunos, o que faz?

 

Aí ainda há mais diversidade das funções desempenhadas, este ano por exemplo, houve pintura, costura de cortinados, jardinagem, entre outras.

 

O que faz para cumprir o que é pedido nesta descrição de anuncio de emprego público para contina?

Este exemplo foi retirado da Bolsa de Emprego Público:

Caracterização do Posto de Trabalho:

 

Grau de Complexidade: 1

Remuneração:
2,91 € / Hora

 

Providenciar a limpeza de espaços exteriores e pinturas, trabalhos de jardinagem, manutenção de equipamentos, pequenas reparações elétricas e arrumação de materiais. Cooperar nas atividades que visem a segurança de crianças e jovens na escola. Efetuar, no interior e exterior, tarefas de apoio de modo a permitir o normal funcionamento dos serviços.

 

Primeiro coloco o meu cérebro de complexo 1 a funcionar, como é de complexo 1, nos trabalhos de pintura apenas mexo a tinta que está na lata, na jardinagem julgo que sei distinguir as ervas daninhas das flores, nas pequenas reparações eléctricas sei perfeitamente colocar uma ficha na tomada eléctrica, quando às outras tarefas basta seguir as ordens superiores e tudo fica perfeitamente encaixado no grau de complexo 1.

 

E o que nos diz da renumeração?

 

Muito boa. Tão boa que nunca levei um aumento em dez anos. Afinal é de complexo 1, quem é que pode pedir mais.

 

E sobre o uniforme da continas, o que tem a dizer?

 

É também ele uma pluralidade de padrões, ele há batinhas com riscas, lisas, rotas, descoradas, com folhinhos, com quadradinhos. A minha é rota e às riscas azul e branco. 

 

E sobre a carreira profissional?

 

Em que zona do país fica isso? É na praia ou na serra?

 

Dona Alicinha, devido ao crescente envelhecimento e ao baixo número de continas nas escolas a senhora acha que podem  também estar a sofrer de  síndrome de burnout, tal como os professores?

 

Não, devido ao grau de complexidade 1, o que temos mesmo é falta de vitaminas.

 

Diga-nos lá porque é que gosta do ser contina?

 

Porque é um vicio, primeiro estranha-se depois entranha-se.

 

Como gostaria que fosse o futuro das continas?

 

Visível, como profissional de educação e que o grau de complexidade 1 fosse abolido do mundo das continas.

 

Muito obrigada Dona Alicinha Contina.

 

De nada. Foi um gosto. Espero ter respondido em versão de complexidade 1, assim todos entendem.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

Transporte escolar - Carta aberta à transportadora Transportes Sul do Tejo

Outubro 21, 2012

Alice Alfazema

Este texto tem o propósito de chamar a atenção de todos os responsáveis por as situações que vou relatar, entre eles estão o Estado, o Ministério da Educação, os Municípios e a TST.

 

 

Imaginem que têm dez anos, 30 kg de peso e que carregam 8 kg às costas, às vezes ainda levam a lancheira na mão ou a mala com o equipamento de educação física.

 

Imaginem que está a chover, por isso, ainda, têm de levar o chapéu de chuva.

 

Imaginem que as vossas forças não são muitas. Que é de manhã cedo.

 

Imaginem que não têm transporte vosso e que têm de utilizar o transporte público. Imaginem que todos os meses recebem o passe que se chama - passe escolar.

 

Imaginem que quando chegam à paragem do autocarro já andaram 500 m, e que as vossas forças não são muitas, imaginem que está a chover e que está frio e que é de manhã bem cedo.

 

Imaginem que na paragem já estão muitos miúdos em iguais condições,  e quando o autocarro chega já vem cheio.

 

Imaginem a espremerem-se, todos os dias, para conseguirem agarrarem-se aos ferros dos bancos porque lugares não há. Imaginem que as vossas forças não são muitas, mas que têm que segurar-se nas curvas e nas travagens.

 

Imaginem que perguntam ao motorista onde podem apresentar a reclamação para que haja outro autocarro nesse horário, uma vez que esta situação é diária durante o período escolar. Imaginem que este diga que ainda não atingiu a lotação por isso não há nada a fazer, e que a sua sugestão seja a de ir no autocarro anterior.

 

Imaginem que a câmara não verifique a situação em que é feito o transporte escolar, no entanto  paga os passes escolares.

 

Imaginem que recorrem à transportadora, a tal que recebe o dinheiro dos passes escolares que, são pagos pelo município, o qual recebe do Estado, que se vale dos contribuintes para ter esse dinheiro, e a resposta é exactamente a mesma do motorista.

 

Agora, imaginem que vão procurar legislação e descobrem que há transportes e outras coisas que não são transportes escolares, mas em que se utilizam passes de transporte escolar.

 

Imaginem que a legislação diz: A presente lei não se aplica aos transportes em táxi e aos transportes públicos regulares de passageiros, salvo se estes forem especificamente contratualizados para o transporte de crianças, pergunto eu, se os passes são pagos com o intuito de servir as crianças, o que é afinal este tipo de transporte? Transporte de perus?

 

E ao ler o artigo encontramos mais pérolas: O Governo, através da tutela dos transportes, deve regulamentar e promover ou apoiar acções de formação profissional dos motoristas, garantindo-lhes conhecimentos, designadamente sobre as regras e medidas de segurança específicas do transporte de crianças e sobre primeiros socorros e relacionamento interpessoal. Quais são as medidas de segurança, na situação que relatei?

 

Mas poderemos ver mais, a cada criança corresponde um lugar sentado no automóvel, não podendo a lotação do mesmo ser excedida. No interior do automóvel que efectua transporte de crianças não é permitido o transporte de volumes cujos dimensão, peso e características não permitam o seu acondicionamento nos locais apropriados e seguros, para que não constituam qualquer risco ou incómodo para os passageiros. Sendo assim, temos dois pesos e duas medidas, há crianças e crianças, portanto, as que utilizam transportes públicos, não são consideradas, nem merecem medidas de segurança, pois podem fazer a viagem toda de pé com bastante peso nas costas, não precisam de cinto, isso só no carro dos pais ou nos transportes de colégios. Será isto o quê? Preconceito? Desleixo? Falta de vontade? Incapacidade? Desconhecimento da realidade? Loucura?

 

Imaginem o que estes jovens vão poder fazer-vos quando as vossas forças já não forem muitas. São capazes de imaginar?

 

 

 

 

 

Consultar legislação aqui.

 

 

Alice Alfazema

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