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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Porque vou fazer greve dia 26 de Maio?

Lembro-me de ter começado a trabalhar com um horário semanal de quarenta e cinco horas, de termos menos dias de férias, de haver uma ausência de muitos direitos que agora usufruímos. Os tais que damos hoje como de adquiridos e consagrados na lei. Esquecem-se que foi através da garra de muitos trabalhadores e do seu salário que tal foi possível. 

 

Recordo-me de que os chefes raramente faziam uma greve, havia no entanto excepções, sabíamos que tinham um lugar e certos privilégios a defender, sabíamos que tinham medo de os perder. As pessoas viam-se a si mesmas como algo de valor, mas faziam-no no colectivo. Lutavam como uma comunidade, tinham o objectivo do bem comum.

 

Dia 26 de Maio está marcada uma greve nacional da função pública, faço parte desses que têm emprego para toda  a vida, como leio em tantos sítios, ganho no entanto o ordenado mínimo nacional, vai para doze anos, nunca fui aumentada, nunca tive prémios de produção ou de mérito, tenho apenas um contrato de trabalho, onde cumpro o meu horário e faço por dar o meu melhor, todos os dias. 

 

Porque vou fazer greve no dia 26 de Maio? Vou fazê-lo porque nunca progredi na carreira, porque quero um salário digno, ninguém vive com dignidade com aquilo que me pagam. E poderão argumentar que são tempos de crise, que há quem não tenha emprego, e que as greves são formas de luta ultrapassadas. Mas como fazemos chegar a nossa voz, se não a juntarmos em uníssono? Se não lutarmos para o bem comum somos estéreis. Pensamos que as nossas acções apenas nos pertencem, não é verdade. O futuro desenha-se todos os dias e ele deve ser global, não apenas de alguns.

 

 

Alice Alfazema 

 

 

A escola é apenas sala de aula?

 

 

 

 

 

 

 

 

Que competências podemos adquirir num recreio? 

 

 

 

 

Qual o motivo de não haver equipas multidisciplinares nas escolas?

 

 

 

 

 

É reconhecido profissionalmente e socialmente o trabalho de equipa entre todos os funcionários que trabalham numa escola?

 

 

Ilustrações  Liuna Virardi

 

 

Alice Alfazema

Entrevista à Dona Alicinha Contina

Com o aproximar galopante do começo deste ano lectivo decidi entrevistar a Dona Alicinha Contina para compreendermos um pouco desse mundo desconhecido que é o mundo das Continas.

 

 Ó Dona Alicinha, diga-nos lá há quanto tempo trabalha como contina?

 

 Eu trabalho para o Ministério da Educação há dez anos.

 

E gosta daquilo que faz?

 

Sim.

 

O que mais gosta no seu trabalho Dona Alicinha?

 

Gosto da pluralidade de tarefas que faço durante o dia, por exemplo tanto posso prestar primeiros socorros como varrer uma sala ou limpar um vómito, posso ainda resolver um conflito existente entre alunos, também já arranquei dentes.

 

E durante o período de férias dos alunos, o que faz?

 

Aí ainda há mais diversidade das funções desempenhadas, este ano por exemplo, houve pintura, costura de cortinados, jardinagem, entre outras.

 

O que faz para cumprir o que é pedido nesta descrição de anuncio de emprego público para contina?

Este exemplo foi retirado da Bolsa de Emprego Público:

Caracterização do Posto de Trabalho:

 

Grau de Complexidade: 1

Remuneração:
2,91 € / Hora

 

Providenciar a limpeza de espaços exteriores e pinturas, trabalhos de jardinagem, manutenção de equipamentos, pequenas reparações elétricas e arrumação de materiais. Cooperar nas atividades que visem a segurança de crianças e jovens na escola. Efetuar, no interior e exterior, tarefas de apoio de modo a permitir o normal funcionamento dos serviços.

 

Primeiro coloco o meu cérebro de complexo 1 a funcionar, como é de complexo 1, nos trabalhos de pintura apenas mexo a tinta que está na lata, na jardinagem julgo que sei distinguir as ervas daninhas das flores, nas pequenas reparações eléctricas sei perfeitamente colocar uma ficha na tomada eléctrica, quando às outras tarefas basta seguir as ordens superiores e tudo fica perfeitamente encaixado no grau de complexo 1.

 

E o que nos diz da renumeração?

 

Muito boa. Tão boa que nunca levei um aumento em dez anos. Afinal é de complexo 1, quem é que pode pedir mais.

 

E sobre o uniforme da continas, o que tem a dizer?

 

É também ele uma pluralidade de padrões, ele há batinhas com riscas, lisas, rotas, descoradas, com folhinhos, com quadradinhos. A minha é rota e às riscas azul e branco. 

 

E sobre a carreira profissional?

 

Em que zona do país fica isso? É na praia ou na serra?

 

Dona Alicinha, devido ao crescente envelhecimento e ao baixo número de continas nas escolas a senhora acha que podem  também estar a sofrer de  síndrome de burnout, tal como os professores?

 

Não, devido ao grau de complexidade 1, o que temos mesmo é falta de vitaminas.

 

Diga-nos lá porque é que gosta do ser contina?

 

Porque é um vicio, primeiro estranha-se depois entranha-se.

 

Como gostaria que fosse o futuro das continas?

 

Visível, como profissional de educação e que o grau de complexidade 1 fosse abolido do mundo das continas.

 

Muito obrigada Dona Alicinha Contina.

 

De nada. Foi um gosto. Espero ter respondido em versão de complexidade 1, assim todos entendem.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

Transporte escolar - Carta aberta à transportadora Transportes Sul do Tejo

Este texto tem o propósito de chamar a atenção de todos os responsáveis por as situações que vou relatar, entre eles estão o Estado, o Ministério da Educação, os Municípios e a TST.

 

 

Imaginem que têm dez anos, 30 kg de peso e que carregam 8 kg às costas, às vezes ainda levam a lancheira na mão ou a mala com o equipamento de educação física.

 

Imaginem que está a chover, por isso, ainda, têm de levar o chapéu de chuva.

 

Imaginem que as vossas forças não são muitas. Que é de manhã cedo.

 

Imaginem que não têm transporte vosso e que têm de utilizar o transporte público. Imaginem que todos os meses recebem o passe que se chama - passe escolar.

 

Imaginem que quando chegam à paragem do autocarro já andaram 500 m, e que as vossas forças não são muitas, imaginem que está a chover e que está frio e que é de manhã bem cedo.

 

Imaginem que na paragem já estão muitos miúdos em iguais condições,  e quando o autocarro chega já vem cheio.

 

Imaginem a espremerem-se, todos os dias, para conseguirem agarrarem-se aos ferros dos bancos porque lugares não há. Imaginem que as vossas forças não são muitas, mas que têm que segurar-se nas curvas e nas travagens.

 

Imaginem que perguntam ao motorista onde podem apresentar a reclamação para que haja outro autocarro nesse horário, uma vez que esta situação é diária durante o período escolar. Imaginem que este diga que ainda não atingiu a lotação por isso não há nada a fazer, e que a sua sugestão seja a de ir no autocarro anterior.

 

Imaginem que a câmara não verifique a situação em que é feito o transporte escolar, no entanto  paga os passes escolares.

 

Imaginem que recorrem à transportadora, a tal que recebe o dinheiro dos passes escolares que, são pagos pelo município, o qual recebe do Estado, que se vale dos contribuintes para ter esse dinheiro, e a resposta é exactamente a mesma do motorista.

 

Agora, imaginem que vão procurar legislação e descobrem que há transportes e outras coisas que não são transportes escolares, mas em que se utilizam passes de transporte escolar.

 

Imaginem que a legislação diz: A presente lei não se aplica aos transportes em táxi e aos transportes públicos regulares de passageiros, salvo se estes forem especificamente contratualizados para o transporte de crianças, pergunto eu, se os passes são pagos com o intuito de servir as crianças, o que é afinal este tipo de transporte? Transporte de perus?

 

E ao ler o artigo encontramos mais pérolas: O Governo, através da tutela dos transportes, deve regulamentar e promover ou apoiar acções de formação profissional dos motoristas, garantindo-lhes conhecimentos, designadamente sobre as regras e medidas de segurança específicas do transporte de crianças e sobre primeiros socorros e relacionamento interpessoal. Quais são as medidas de segurança, na situação que relatei?

 

Mas poderemos ver mais, a cada criança corresponde um lugar sentado no automóvel, não podendo a lotação do mesmo ser excedida. No interior do automóvel que efectua transporte de crianças não é permitido o transporte de volumes cujos dimensão, peso e características não permitam o seu acondicionamento nos locais apropriados e seguros, para que não constituam qualquer risco ou incómodo para os passageiros. Sendo assim, temos dois pesos e duas medidas, há crianças e crianças, portanto, as que utilizam transportes públicos, não são consideradas, nem merecem medidas de segurança, pois podem fazer a viagem toda de pé com bastante peso nas costas, não precisam de cinto, isso só no carro dos pais ou nos transportes de colégios. Será isto o quê? Preconceito? Desleixo? Falta de vontade? Incapacidade? Desconhecimento da realidade? Loucura?

 

Imaginem o que estes jovens vão poder fazer-vos quando as vossas forças já não forem muitas. São capazes de imaginar?

 

 

 

 

 

Consultar legislação aqui.

 

 

Alice Alfazema

Conversas da escola (42)

 

- Quanto mede o pão do teu almoço?

- Qual?

- Aquele que comes no refeitório da escola.

 

 

A régua tem 15cm...

 

- Gostas da comida?

- Às vezes...

- Qual é a idade dos meninos que comem este pão?

- Entre os 10 e os 16 anos.

- Ficas com fome?

- Sim.

- ...

 

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

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