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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Somos instantes, tão breves como as nuvens

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Vivemos tão repentinamente como um bater de asas. Somos apenas instantes. Breves. Breves como uma brisa oceânica. Ou breves como um leve bater de asas. Apenas nos damos conta disso quando embatemos de frente com o Tempo. 

 

Há vidas muito leves e pequeninas, mas não cabem na palma de uma mão. São grandes num coração. São um piscar de olhos numa tarde soalheira. A vida levou as gargalhadas que deixaram de ecoar. 

 

 

Alice Alfazema

A miúda das bochechas cor-de-rosa

Ilustração Aurélie Blanz

 

A miúda tem voz de desenho animado, faz covinhas na cara quando ri, nunca larga o telemóvel, e o seu nome é nome de flor. É miudinha, com rosetas nas bochechas, tem sempre amigos por perto, preocupam-se com ela, tem uma amiguinha que nunca sai da sua beira, passam os intervalos sempre juntas, sempre falando e rindo. A miúda na sua cadeira de rodas rosa, com rodinhas de luzes é transportada com um enorme carinho. A mãe, da menina com nome de flor,  tem sempre um sorriso, um bom dia dito de forma alegre. Há algo de mágico na relação entre as duas. A flor, tem uma saúde frágil, uns ossos que se partem com um sopro, o que talvez tenha acontecido hoje, mas ela mantêm o sorriso e diz que talvez tenha o braço partido, e fala sem chorar, habituada à dor. Eu fico ali a olhar, sinto vontade de a abraçar, faço-lhe um carinho na bochecha colorida, ela dá-me um leve sorriso. Fico ali naquele momento perdida nos meus pensamentos, a pensar que as minhas grandes tristezas não valem nada perto daquilo que vejo, sinto-me pequenina diante daquela miúda tão forte e sorridente, com voz de desenho animado que alegra este átrio.

 

Alice Alfazema

Menina triste

A Joana é uma menina triste, não tem sorriso nem sabe que é menina. Vive de sombras e de ilusões, chama-se Joana, mas pode ter outro nome, Maria dos dias sem sol. Passa de escola em escola, como uma lufada de ar. Não sabe que é menina, já pensa que é mulher, de corpo franzino e de olhar triste, navega de terra em terra, não sabendo o que quer. Ninguém lhe ensina o que é ser menina, todos a julgam mulher. A infância já se foi e ela nem deu por isso, não sabe o que perdeu nem o que poderia ter ganho. Mãe e pai não existem, nem presentes nem ausentes, são sombras de outros que também não souberam o que é ser menino ou menina. Infâncias perdidas em dias desgastados, senhores ausentes de responsabilidades, culpam os inocentes, que as meninices arrancaram, culpados de terem nascido, culpados de não saberem. Os nobres exalam perfumes de outrora; esquecendo memórias; esquecendo o que valem; esquecendo o que devem; esquecendo o que são.

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

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No cabeçalho, pintura de Hiroe Sasaki.

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