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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

A todos os lugares e a todas as cores, do coração para a cabeça e da cabeça para o coração

 Fotografia do blogue, Dias com árvores

 

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas.

 

A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 

 

Almada Negreiros, in “O Regresso ou o Homem Sentado – III parte”

 

 

Texto retirado da Aldeia, um sítio a visitar.

 

 

Alice Alfazema

1 de Maio de 2015

Hoje apetece-me flores:

Flores pelos que já foram, flores para mim, flores para quem quiser.

As flores que falam sem palavras, para quem as letras nada dizem.

Onde os amores estão perfeitos, mudos e cheios de cor.

É o Maio que entra em tons cativantes, no céu as nuvens pintadas a carvão, nas ruas os ramos das árvores balançam, agitando o verde novinho das folhas.

Colhi estas flores por aí, neste mundo virtual, tal como quem colhe nos muros dos outros que ficam perto da nossa rua, ficarão aqui até que murchem. 

 

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

 

 

Alberto Caeiro 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

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