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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Precaução

Junho 17, 2017

Alice Alfazema

Um mestre do Oriente viu um escorpião se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Por conta da reação à dor, o mestre o soltou e o animal caiu na água e ficou se afogando novamente. O mestre tentou tirá-lo outra vez e novamente o animal o picou. Alguém que estava olhando o mestre se aproximou e lhe disse:

– Desculpe, mas o senhor é teimoso! Não vê que cada vez que tentar tirá-lo da água ele irá lhe picar?

O mestre respondeu:

– A natureza do escorpião é picar, e isso não irá mudar a minha que é ajudar.

Portanto, com a ajuda de uma folhas, o mestre tirou o escorpião e o salvou.

“Não mude a sua essência quando alguém lhe fizer mal, só tenha precaução.

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

A rotunda e as ovelhas

Agosto 25, 2015

Alice Alfazema

Num dia destes, enquanto passeávamos o Ginjas encontrámos quatro ovelhas a comer a relva da rotunda. Fresca e viçosa a relva parecia apetitosa, e deveria de o estar, pois a devoravam  num frenesim  melódico, encabeçado pelos chocalhos pendentes nos pescoços. Eram só as quatro,  fugidas do resto do rebanho. A música campestre pairava no ar, a pauta eram os dentes e as mastigadelas vorazes. O Ginjas, aquele dez reis de cão, ladrou, e o vozeirão fê-las parar. Silêncio. O cão ladrou outra vez. Deixá-mo-lo andar até elas. Fugiram. Mais uma ladradela e mais uma fugida. O medo era o seu pastor. Bastou apenas um som para as assustar, nada de mais, apenas isso. Formatadas para sentirem o medo como objectivo de vida. Talvez se tenham distraído um pouquinho, mas ele devora-as, assim como devora todos aqueles que se encontram na rotunda esperando que outros lhes indiquem o caminho, lhes criem as experiências que desejam, que lhes digam aquilo que acham que merecem ouvir, que não ousam por vergonha do falhanço, da perda, da dor. Petrificados ficam na relva, quando afinal a rotunda tem mais que um caminho para ousar. O medo é gelo. Mas ainda temos o Sol.

 

Alice Alfazema 

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