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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Caretas e coisas divertidas

 

 

Ilustração Analisa Aza

 

 

Ainda ontem quando íamos na autoestrada, numa das entradas surge um casal de moto, olho para o homem que ia a conduzi-la e vejo que no capacete tem uma câmara de filmar, fico a guardar que ele olhe em direcção a nós e faço-lhes adeus e não é que o homem levanta a mão e dá-me de volta um adeus, daqueles fraternos, fiquei tão contente que acenei-lhe com mais vigor. Lá atrás ouve-se uma voz, mais ou menos resignada com estas situações: oh mãe para lá com isso...

 

 

Alice Alfazema

 

Mãe xoninhas

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Uma mãe xoninhas é aquela que alerta para todos os perigos e mais alguns sobre andar de bicicleta na estrada, no campo, no jardim, na praia, mas depois quando vê as fotografias até acha que estão muito bonitas, mas e isto foi aonde, quantos quilómetros, levaste água e comida...blá, blá, blá...blá...blá....olha vou por esta fotografia no blogue.

 

Alice Alfazema

Bordar

Estava eu a passar a ferro a minha velhinha blusa de bordado inglês, quando me lembrei que nunca aqui coloquei nada do que sei bordar, então hoje vai ser novidade fresquinha a minha velha blusa branca, já muito lavada, mas muito amada.

 

Ainda era uma miúda quando bordei isto:

 

bordado1.JPG

 

Foi feita em pano de casquinha de ovo, era o que chamava na altura, não sei outra designação para o tipo de tecido, sei que é dos bons, pois tem aguentado muitas máquinas de lavar, é que não a lavo à mão.

 

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O tecido e as linhas comprei-os nas velhas lojas da baixa de Setúbal. A linha é da marca Âncora, linha de algodão, fabricado em Portugal, Coats&Clark. Tínhamos nesse tempo em Setúbal uma grande variedade de lojas de tecidos e outros materiais necessários à confecção de peças de vestuário e não só. Ainda hoje existem lojas dedicadas a este comercio, mas naquele tempo era possível encontrar em todas as ruas da baixa lojas com tecidos expostos no lado de fora da loja. 

 

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Entravamos na loja e havia o dono da loja e mais duas ou três empregadas. Era um serviço personalizado. Os maços de tecidos eram retirados de cima das prateleiras, muitas delas estavam bastante altas, aquilo pesava imenso. Depois em cima do balcão de madeira fazíamos a nossa escolha, era sempre difícil, tal era a variedade. Cada loja fazia brio em ser a mais simpática e eficiente continuando a renovar o stok e sempre com muitas novidades, muitos dos tecidos eram portugueses, penso que até seriam a maioria. 

 

bordado4.JPG

 

Bordei e costurei esta  blusa ainda não tinha 18 anos. Bordei-a à máquina, numa velha Singer a pedal. para fazer este tipo de bordao temos primeiro de passar para o tecido o desenho que escolhemos. Copiamos então o desenho para o papel vegetal com lápis de carvão e aplicamos depois no tecido. O tecido é assim colocado num bastidor, aqueles arcos de madeira que prendem os tecidos, é finalmente esticado de tal forma que faça efeito de tambor, só então é possível iniciar o bordado. É preciso ainda uma tesoura de bicos levantados e muito afiada e algo que fure o tecido, para fazer aqueles pequenos pontinhos, usei um espigão de uma flor.

 

bordado5.JPG

 

Depois de muitas pedaladas, que aquela máquina não tinha motor, e tesoura em riste, porque é preciso cortar o tecido com precisão cirúrgica e desmanchar porque nem sempre se consegue a perfeição, ou o que queremos de mais parecido com ela, eis aqui o meu labor. 

 

 

A linha é uma sucessão de pontos, como nos ensina a Matemática, e cronológica é a linha da vida, como nos ensina o relógio.
Tecer é dar sentido à forma linear e simples, dar forma e estrutura ao que está emaranhado e confuso.
Tecer é compreender uma sucessão de eventos que parecem vazios, sujos, desordenados ou inúteis.
Tecer é uma dança ritmada dos dedos, é usar correctamente a energia em favor da trama harmoniosa que pede o tecido.
Tecer é respiração, é o amor entre o que está cheio e o que está vazio.
Tecer é avançar e recuar, fazer e desfazer, emendar e entrelaçar.
Cronos não é um tecelão.

 

 

 Poema de Isabel Carvalho 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

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No cabeçalho, pintura de Hiroe Sasaki.

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