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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Da minha janela

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Da minha janela vejo o mundo, sinto os ventos que sopram. Da minha janela deixo os outros espreitarem, para que sintam os ventos que sopram. Alguns assomam-se devagarinho. Outros vão embora sem espreitar. E há os que ficam comigo a ver o mundo da minha janela. Não tenho interesse  em pertencer a grupos, gosto da liberdade de estar só. Poderia ser um lobo e explorar montanhas e vales, ou gaivota para planar sobre as ondas salgadas e sentir a força do vento nas minhas asas, ou talvez uma águia e fazer um voo picado no meio de um vale, também poderia ser baleia e viajar pelos oceanos. Da minha janela posso ser tudo e nada ao mesmo tempo. Isso fascina-me. A minha janela é grande, a minha janela é pequena. É aquilo que eu quiser. É redonda. É quadrada. É livre. Sem vidros. A minha janela é azul. É amarela. É da cor que eu entender. A janela é minha, mas podem espreitar se quiserem. Eu deixo.

 

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Alice Alfazema

Onde estou, para onde vou?

Onde moras?

Aqui.

 

 

Onde fica isso?

Neste planeta.

 

 

Como se chama esse planeta?

Terra.

 

 

É bonito o teu planeta?

É.

 

 

Qual é a cor predominante no teu planeta?

Azul.

 

 

O teu planeta gosta de ti?

Sim.

 

 

Porque dizes isso?

Ele oferece-me a oportunidade de vida.

 

 

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

 

 

 

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

 

 

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

 

Poema de Cora Coralina

 

 

 

Alice Alfazema

Conversas da escola - A imitação

Hora de intervalo, a fila é grande no bufete da escola:

- Eu quero um pastel de nata e um pão com chouriço.

Registo e dou a mercadoria, passo ao cliente seguinte:

- Quero um pastel de nata e um pão com chouriço.

Registo e começo a dar a mercadoria.

- Não! Eu estava a imitar! Eu estava a imitar! Eu estava a imitar!

?

- Eu estava a imitar ela, só quero o pastel de nata.

 

 

Alice Alfazema

Março dia 18 - Mulheres que trabalham nas escolas públicas

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Há onze anos que trabalho numa escola pública, como assistente operacional, que antes era chamada de auxiliar de acção educativa. Na entrevista de candidatura perguntaram-me se eu tinha problemas em fazer limpezas, naquele tempo não percebi a insistência na pergunta, alguns meses depois, e durante os anos seguintes senti no corpo a razão daquela pergunta. Cheguei a ter mais de oito salas de aula por limpar, mais a soma da zona de recreio onde abundam árvores, canteiros e lixo espalhado pelo chão.

 

Ainda hoje não sei realmente a verdadeira função de uma assistente operacional na escola, tenho muita dificuldade em perceber o que sou no meu trabalho, às vezes sou varredora, outras empregada de bar, noutras administrativa, sou ainda vigilante e mediadora de conflitos. Também já fui costureira e pintora nos tempos mortos. No entanto, por vezes estou coberta por uma capa invisível como o Harry Potter, às vezes sou bruxa má, noutras sou fada madrinha.

 

Tenho também dificuldade em perceber o porquê de as acções de formação para assistentes operacionais serem praticamente inexistentes ou então resumem-se a primeiros-socorros e à higiene e segurança no trabalho, há ainda outras dificuldades quanto ao salário e à denominação do nome da carreira, por exemplo se eu trabalhasse num politécnico estaria na carreira de assistente técnico,  mas isso são contas de outro rosário...

 

Desta forma decidi pedir às minhas colegas que me definissem o que significa para elas ser assistente operacional numa escola pública, aqui estão as suas palavras, deixo também fotografias que tirei na escola ao longo dos anos e que demonstram como cuidamos da nossa escola que é para nós como uma segunda casa.

 

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É saber aconselhar e dar atenção quando necessário.

 

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É ser pau para toda a obra. É ter de saber fazer de tudo e mais alguma coisa. É ser invisível na maioria dos casos. É dependendo da situação não fazer falta nenhuma.

 

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É estar desmotivada, mas ter ternura para dar.

 

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Ser assistente operacional é participar activamente na comunidade escolar, é participar nas actividades extra curriculares, mas infelizmente não é exactamente essa a realidade.

 

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É como ser dona de casa! Fazer de tudo um pouco e às vezes o seu valor não ser reconhecido. Somos amas, educadoras, enfermeiras, administrativas, empregada de limpeza, vigilantes, confidentes, amigas, jardineiras, telefonistas, cozinheiras.

 

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Nós somos um bocadinho de tudo, ao lidar-mos com meninos com necessidades educativas especiais. Trabalhamos com meninos que andam em cadeira de rodas, que se movem através de andarilhos, que não falam, somos pois enfermeiras, mudamos-lhes as fraldas, damos-lhes de comer, vemos se têm febre, temos de saber actuar caso seja necessário, somos portanto um bocadinho de tudo, enfermeiras, psicólogas, educadoras, mães...

 

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Ser assistente operacional numa escola deveria ser um complemento ao professor na sua ausência; durante os tempos livres zelar pelo bom comportamento dos alunos e auxilia-los quando necessário. Eu assistente operacional, sou empregada de limpeza e criada a tempo inteiro durante as 7h ou mais se necessário quer para professores, pais ou alunos. 

 

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É ser colaboradora dos professores. Para ser mais precisa, envolve tarefas simples como ir buscar um livro de ponto, dar um recado, ou levar um aluno à direção quando está a ser incorreto na aula. É uma profissão que envolve algumas tarefas diversificadas, mas em todos os postos de trabalho temos um contato próximo com alunos que nos permite ser: amigos, confidentes, enfermeiros, psicólogos e alertar os professores para alguns possíveis perigos...quer de maus tratos em casa ou até de bullying. Somos poucos assistentes operacionais, mas sem nós as escolas não podem (não devem) funcionar. Cabe-nos também a tarefa de manter os espaços limpos e em bom estado de conservação.

 

 

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A maioria das  pessoas não tem a noção daquilo que é ser "assistente operacional" numa escola, alguns pensam que levamos o tempo sem fazer nada, mas façam uma simples reflexão: se para educarmos um filho exige muita perseverança imaginem o que é exigido para mais de 700? Algumas pessoas pensam que a escola é simplesmente o "contexto de sala de aula", então no resto do tempo os miúdos desaparecem como que por milagre? E as problemáticas sobre a violência em meio escolar acontecem apenas em "contexto de sala de aula? Tenho-me deparado ao longo dos anos-lectivos com a recepção à comunidade educativa, para quem é a recepção? Adivinhem? Homenagens? A quem? Esta malta não trabalha em contexto de sala de aula. Até o uniforme é uma coisa do além, desde batas às florzinhas, outras aos quadradinhos...será que custava muito definir a coisa a nível institucional? Quanto ao salário, basta o ordenado mínimo nacional, isto porque as tarefas são todas muito básicas. O próprio Estado promove este pensamento retrogrado ao nivelar por baixo estas funções, quanto ao resto da sociedade...experimentem exercer esta função durante seis meses, depois contem-me.

 

Obrigada colegas!  

 

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Um abraço da Alicinha Contina, para todas as continas do mundo e arredores. 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

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