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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O meu pequeno mundo

Leio num site de uma câmara municipal, que uma escola primária vai ser ampliada e vão ser criados novos espaços para que haja uma reorganização das diferentes áreas funcionais inerentes à escola. Que bom. Que bom que é ler e saber que vão criar um espaço para o pessoal não docente (esta parte podem ler de um modo sarcástico). Sendo que se até aqui não havia um é mau, muito mau. Se havia e agora é necessário fazer outro espaço é sinal de separação de hierarquias, termo muito importante na função pública.

 

Mesmo assim continuo a questionar-me, sendo tão poucas as pessoas a trabalharem numa escola, entre elas, auxiliares e professores/educadores de infância é urgente haver um espaço de separação de pessoal? Existirão em outras empresas salas para chefes, salas para chefinhos e salas para outros. É que já me chegou aos ouvidos coisas do tipo (quando as pessoas que trabalham no mesmo local estão todas na mesma sala e alguém diz): nem aqui podemos ter privacidade. A privacidade é uma coisa assim do foro intimo, não profissional, a não ser que envolva assuntos que devem ser discutidos em outros locais que não seja a sala de convívio do pessoal, vulgo trabalhador seja ele de que categoria for.

 

Aqui neste meu pequeno mundo é ainda muito importante a separação profissional de forma a demarcar um território há pouco conquistado, porque há bem poucos anos éramos quase todos analfabetos e não nos distinguíamos grandemente uns dos outros. 

 

 

 

Alice Alfazema

Naquele tempo

 

Ilustrações  Rebecca Cobb

 

 

 

 

 
 
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.
 
 
 
Manuel António Pina, in Todas as Palavras, ed. Assírio & Alvim 
 
 
 
 
Alice Alfazema
 

Conversas da escola - Começar de novo

Dois miúdos já grandotes aproximam-se do balcão, um traz um baldinho de granola e põe o dedo em riste:

- Dê-me aí uma colher.

, dê-me aí? Mas o que é isto... isto aqui não é a tasca da esquina, nem ouvi: bom-dia, se faz favor...

O que estava com ele segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele diz-me:

- Vamos começar do princípio?

- Então vamos lá...

- Bom dia, Dona Alicinha! Pode-me emprestar uma colher se faz favor?

 

 

 

Alice Alfazema

Conversas da escola - 8 h

Entro na escola, são oito horas da manhã, vou para o bufete. Lá dentro tenho um balcão, na frente desse balcão existe uma grade rendilhada, quem está do lado de fora não me vê, enquanto eu vejo tudo o que se passa nesse lado. No lado de fora estão mesas e cadeiras é o espaço polivalente. Nessa hora estão muitos miúdos sentados nelas, umas vezes nas cadeiras outras nas mesas. As cadeiras dançam, são arrastadas, saem de um lado para outro, num vai-e-vem de brincadeira. Abro a porta do meu esconderijo, eles olham para mim, digo alto e a bom som:

- Não estamos em Torremolinos!

Ninguém responde, e as mãos começam a arrumar as cadeiras. Fecho a porta e dá-me vontade de rir. Rio. Gosto de rir sozinha. 

 

 

Alice Alfazema

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No cabeçalho, pintura de Hiroe Sasaki.

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