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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

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David Sobral & CR7

Outubro 14, 2017

Alice Alfazema

 

David Sobral estuda o céu estrelado para compreender a formação e o desenvolvimento das galáxias desde o universo primitivo. Doutorado em Astrofísica e, desde 2016, professor na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, no currículo cabe-lhe, ainda, a representação de Portugal no comité de investigadores do Observatório Europeu do Sul (ESO) e na direção da Sociedade Portuguesa de Astronomia.

 

David Sobral não toma o céu como limite e interroga-se sobre quem somos e de onde vimos. Questões a que o investigador ficou mais perto de dar resposta quando, em 2015, liderou a descoberta da galáxia mais brilhante do universo primitivo.

 

 

Como é que a curiosidade em olhar para o céu virou profissão?

 

É uma história complexa. Como qualquer miúdo queria ser astronauta – acho que toda a gente quer ser astronauta -, mas ao mesmo tempo também quis ser escritor.

 

O grande fascínio surgiu na infância. Ia a Porto Covo e ao Alentejo e o céu era espetacular. E esse fascínio ficou sempre comigo. Combinando isso com o livro de João Magueijo – que me desviou para a física – e com o Observatório Astronómico de Lisboa percebi que gostava mesmo disto. Foram muitas combinações de fatores, num caminho que não foi de todo retilíneo.

 

 

O risco e a exploração de hipóteses alternativas abriram as portas à descoberta da CR7. O que é e porque é que foi batizada com este acrónimo?

 

 

A CR7 é uma galáxia muito distante e tão brilhante que se achava que não poderia existir nada assim no universo primordial. É importante, porque numa galáxia tão distante conseguimos ver os vários componentes, o que normalmente não é acessível.

 

Uma das razões pela qual demos o nome de CR7 é porque nos dá as coordenadas no céu. Cada uma das letras é uma espécie de coordenada: o “C” diz-nos que a galáxia está num campo do céu a que chamamos “COSMOS” e o “R7” diz-nos a que distância é que está este desvio para o vermelho. É, também, quase como uma piada minha e de uma estudante de doutoramento, porque na altura encontramos duas galáxias muito brilhantes em que uma delas era muito pequena e a CR7 era aparentemente muito grande. Começamos a brincar que era o Messi e o Ronaldo, portanto também houve alguma intenção. Por ser tão natural, o CR7 chega a muita gente e faz divulgação científica. Percebermos que era uma maneira de interessar outras pessoas, que normalmente não leem sobre astronomia, para perceberem o quão interessante ela pode ser.

 

 

O que é que torna esta descoberta tão especial, ao ponto de estar entre as 10 melhores do Observatório Europeu do Sul (ESO)?

 

 

Na altura era a melhor candidata a ser a primeira galáxia sem os elementos pesados, o que acabou por ser um fator importante na hora de entrar para as 10 melhores descobertas do ESO. 

 

 

Na mesma medida que um astrofísico aposta na descoberta do desconhecido, o desafio para quem financia a ciência e a investigação no campo da astronomia passa, também, por investir no longo prazo?

 

 

Sem dúvida. E, aqui, a questão prende-se com a importância em apostar na investigação fundamental, aquilo que em inglês se chama “Blue Sky Research”. Normalmente, há a ideia de que a melhor maneira de investir é em algo que vai ter um retorno económico quase imediato. Se seguíssemos essa lógica, era impossível que investindo apenas no desenvolvimento de velas se chegasse aos LED. A questão principal é que as maiores invenções e aquelas que têm um maior retorno nunca são feitas diretamente, o caminho nunca é linear.

 

A importância da humanidade enquanto um todo em investir na ciência “dos maluquinhos” – dos que querem perceber porque é que o céu é azul ou como é que os átomos funcionam – não parece ter qualquer retorno. Mas, em última análise acabam por dar técnicas, por exemplo, para desenvolver o que hoje são as ressonâncias magnéticas ou a web. Tudo isso nunca seria financiado por retorno económico, mas tiveram os maiores retornos económicos de sempre.

 

Apostar no longo prazo acaba por ser periódico. Há sempre uma altura em que a sociedade aposta um bocadinho mais nas áreas fundamentais e outras alturas de maior aperto económico em que se acha que temos é de ser eficazes. Na prática, se apostássemos só nas pessoas que têm a maior das curiosidades tínhamos o melhor retorno económico. Só que poderiam demorar algum tempo.

 

 

No seu blog, num artigo intitulado “Stories of stars and you”, escreveu que “somos filhos das estrelas.” Porquê?

 

 

Somos o resultado dos átomos pesados que foram feitos nos núcleos das estrelas. Ou seja, sem elas não poderíamos existir. Todos somos poeira de estrelas, mas não somos poeira de qualquer estrela. É uma questão poética saber se associamos isso a uma relação pai-filho ou apenas a uma consequência da atividade das estrelas de maior massa que permitiu a nossa existência.

 

 

 

 

 

Texto retirado JPN, de um artigo editado por Filipa Silva. JPN é um jornal multimédia de informação geral e atualização permanente. É um projeto da Licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto.

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

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