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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Conversas da escola - Almoçar fora

Outubro 17, 2017

Alice Alfazema

Um dos miúdos que almoça na escola com o escalão A, e que tem lanche dado pela escola. É um rapaz  que gosta de comer fruta e de jogar à bola e que quer ser igual a todos os outros.

 

- Sabe que ele ontem não foi almoçar no refeitório? Disse-me que tinha ido almoçar fora...almoçou com os outros fora da escola. E sabe o que ele me disse? Que comeu duas ou três batatas fritas que os outros lhe tinham dado...

 

 

Alice Alfazema

Chuva

Outubro 16, 2017

Alice Alfazema

 

Ilustração Stanley Kerr

 

 

Neste momento está a chover. Há tanto tempo que não chove. Já tinha saudades da chuva e do cheiro a terra molhada. As formigas hão-de esconder-se das gotas de chuva. Abençoada água que cai do céu e molha a terra demasiado seca. O resto das folhas das árvores hão de cair já sem força para continuarem nos ramos. A chuva cai de mansinho, avançando pela estrada escura e suja de pó. Lava a estrada, lava o ramo, lava a mágoa do dia de ontem. Bem-vinda chuva que estais caindo.

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

Conversas da escola - Em dia de simulacro

Outubro 15, 2017

Alice Alfazema

Era dia de simulacro, " A Terra Treme", e  tinha acabado de acontecer o exercício feito a nível nacional, quando eis que chegam três miúdos, duas raparigas e um rapaz, dos seus onze anos, a chorar, uma delas nervosíssima, que pega no telemóvel e relata a situação à mãe.   

 

 

A professora diz-me:

 

- Dona Alicinha arranje aí um chá, se faz favor, para estes meninos que estão um bocadinho nervosos.

- Vou já fazer...

As crianças sentam-se à espera do chá, uma delas diz que não é preciso, a tal que continua a chorar e ao telemóvel com a mãe. Levo o chá e digo-lhe que quero falar com ela. Ela tenta passar-me o telemóvel e diz-me:

- Quer falar com a minha mãe?

- Não. Quero falar contigo.

- Ah. Está bem. 

E desliga o aparelho mágico.

- Então o que se passou?

- Nós estávamos na aula e o meu colega do lado vomitou. Eu não quero estar na sala com aquele cheiro. Eu não aguento aquele cheiro. Aquele cheiro não vai sair dali...

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

David Sobral & CR7

Outubro 14, 2017

Alice Alfazema

 

David Sobral estuda o céu estrelado para compreender a formação e o desenvolvimento das galáxias desde o universo primitivo. Doutorado em Astrofísica e, desde 2016, professor na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, no currículo cabe-lhe, ainda, a representação de Portugal no comité de investigadores do Observatório Europeu do Sul (ESO) e na direção da Sociedade Portuguesa de Astronomia.

 

David Sobral não toma o céu como limite e interroga-se sobre quem somos e de onde vimos. Questões a que o investigador ficou mais perto de dar resposta quando, em 2015, liderou a descoberta da galáxia mais brilhante do universo primitivo.

 

 

Como é que a curiosidade em olhar para o céu virou profissão?

 

É uma história complexa. Como qualquer miúdo queria ser astronauta – acho que toda a gente quer ser astronauta -, mas ao mesmo tempo também quis ser escritor.

 

O grande fascínio surgiu na infância. Ia a Porto Covo e ao Alentejo e o céu era espetacular. E esse fascínio ficou sempre comigo. Combinando isso com o livro de João Magueijo – que me desviou para a física – e com o Observatório Astronómico de Lisboa percebi que gostava mesmo disto. Foram muitas combinações de fatores, num caminho que não foi de todo retilíneo.

 

 

O risco e a exploração de hipóteses alternativas abriram as portas à descoberta da CR7. O que é e porque é que foi batizada com este acrónimo?

 

 

A CR7 é uma galáxia muito distante e tão brilhante que se achava que não poderia existir nada assim no universo primordial. É importante, porque numa galáxia tão distante conseguimos ver os vários componentes, o que normalmente não é acessível.

 

Uma das razões pela qual demos o nome de CR7 é porque nos dá as coordenadas no céu. Cada uma das letras é uma espécie de coordenada: o “C” diz-nos que a galáxia está num campo do céu a que chamamos “COSMOS” e o “R7” diz-nos a que distância é que está este desvio para o vermelho. É, também, quase como uma piada minha e de uma estudante de doutoramento, porque na altura encontramos duas galáxias muito brilhantes em que uma delas era muito pequena e a CR7 era aparentemente muito grande. Começamos a brincar que era o Messi e o Ronaldo, portanto também houve alguma intenção. Por ser tão natural, o CR7 chega a muita gente e faz divulgação científica. Percebermos que era uma maneira de interessar outras pessoas, que normalmente não leem sobre astronomia, para perceberem o quão interessante ela pode ser.

 

 

O que é que torna esta descoberta tão especial, ao ponto de estar entre as 10 melhores do Observatório Europeu do Sul (ESO)?

 

 

Na altura era a melhor candidata a ser a primeira galáxia sem os elementos pesados, o que acabou por ser um fator importante na hora de entrar para as 10 melhores descobertas do ESO. 

 

 

Na mesma medida que um astrofísico aposta na descoberta do desconhecido, o desafio para quem financia a ciência e a investigação no campo da astronomia passa, também, por investir no longo prazo?

 

 

Sem dúvida. E, aqui, a questão prende-se com a importância em apostar na investigação fundamental, aquilo que em inglês se chama “Blue Sky Research”. Normalmente, há a ideia de que a melhor maneira de investir é em algo que vai ter um retorno económico quase imediato. Se seguíssemos essa lógica, era impossível que investindo apenas no desenvolvimento de velas se chegasse aos LED. A questão principal é que as maiores invenções e aquelas que têm um maior retorno nunca são feitas diretamente, o caminho nunca é linear.

 

A importância da humanidade enquanto um todo em investir na ciência “dos maluquinhos” – dos que querem perceber porque é que o céu é azul ou como é que os átomos funcionam – não parece ter qualquer retorno. Mas, em última análise acabam por dar técnicas, por exemplo, para desenvolver o que hoje são as ressonâncias magnéticas ou a web. Tudo isso nunca seria financiado por retorno económico, mas tiveram os maiores retornos económicos de sempre.

 

Apostar no longo prazo acaba por ser periódico. Há sempre uma altura em que a sociedade aposta um bocadinho mais nas áreas fundamentais e outras alturas de maior aperto económico em que se acha que temos é de ser eficazes. Na prática, se apostássemos só nas pessoas que têm a maior das curiosidades tínhamos o melhor retorno económico. Só que poderiam demorar algum tempo.

 

 

No seu blog, num artigo intitulado “Stories of stars and you”, escreveu que “somos filhos das estrelas.” Porquê?

 

 

Somos o resultado dos átomos pesados que foram feitos nos núcleos das estrelas. Ou seja, sem elas não poderíamos existir. Todos somos poeira de estrelas, mas não somos poeira de qualquer estrela. É uma questão poética saber se associamos isso a uma relação pai-filho ou apenas a uma consequência da atividade das estrelas de maior massa que permitiu a nossa existência.

 

 

 

 

 

Texto retirado JPN, de um artigo editado por Filipa Silva. JPN é um jornal multimédia de informação geral e atualização permanente. É um projeto da Licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto.

 

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

Palavras intemporais

Outubro 14, 2017

Alice Alfazema

A vida, acredita, não é um sonho
Tão negro quanto os sábios dizem ser.
Freqüentemente uma manhã cinzenta
Prenuncia uma tarde agradável e soalhenta.
 
 
 

primavera.jpg

 

 

 

Às vezes há nuvens sombrias
Mas é apenas em certos dias;
Se a chuvada faz as rosas florir
Ó porquê lamentar e não sorrir?
 
 
 
 

verão.jpg

 

 

 

 

Rapidamente, alegremente
As soalhentas horas da vida vão passando
Agradecidamente, animadamente
Goza-as enquanto vão voando.
 
 

outono.jpg

 

 

 

 

E quando por vezes a morte aparece
E consigo o que de melhor temos desaparece?
E quando a dor se aprofunda
E a esperança vencida se afunda?
 
 
 

 

 

inverno.jpg

 

 

 

 

Oh, mesmo então a esperança há-de renascer,
Inconquistável, sem nunca morrer.
Alegre com a sua asa dourada
Suficientemente forte para nos fazer sentir bem
Corajosamente, sem medo de nada
Enfrenta o dia do julgamento que vem.
Porque gloriosamente, vitoriosamente
Pode a coragem o desespero vencer.

 

 

 

 

Poema é de Emile Brontë.

 

 

 

E as lindíssimas ilustrações são da artista colombiana Lorena Álvarez Gómez.

 

 

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

Conversas da escola - O ingrediente mistério

Outubro 12, 2017

Alice Alfazema

Três miúdas que vão juntas todos os dias pela manhã ao bar da escola, comem religiosamente um maravilhoso croissant, se uma escolhe misto as outras querem igual, se o sumo é de manga as outras querem igual, quando uma muda, as outras seguem-lhe a ementa.

 

 

Num destes dias:

 

- Contina, bom-dia! Quero um croissant misto e um sumo de manga-laranja.

- Contina, bom-dia! Quero um croissant misto e um sumo de manga-laranja.

- Contina, bom-dia! Quero um croissant misto e um sumo de manga-laranja.

 

Um dia depois:

 

- Contina, havia um croissant que tinha um bicho, ou lá o que era...

- Então, e porque é que não vieram cá?

- Acho que era um bicho, era uma coisa estranha...

- Se calhar era a massa que estava torrada...mas deviam ter vindo cá.

- Era estranho.

 

Três dias a trocarem os croissants por pães com manteiga.

 

Hoje:

 

- Contina, bom-dia! Quero um croissant misto.

- Com bicho ou sem bicho?

- Ah! Lá tá você...

 

 

 

Alice Alfazema

 

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