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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

O bidé florido

Fevereiro 18, 2018

Alice Alfazema

bidé1.JPG

 

Era uma vez um bidé que estava farto de maus odores e peles descaídas, durante toda a sua vida tinha aturado cus e pipis, uns flácidos e gordos, outros magros e ossudos, flatulentos e com cheiro de rato morto. Caganeiras ralas. Vómitos. Sentavam-se nele sem mais nem menos, até o gato lá ia beber água. Havia dias em que não aguentava com tanto peso, um dia rachou e tornou-se um estorvo, ninguém queria saber dele, até que lhe arrancaram os parafusos que o seguravam ao chão. Foi trocado por um novo. 

 

bidé2.JPG

 

Deitaram-no fora, sem remorsos, depois de tudo o que lhes tinha oferecido. Sentiu-se reles ali no meio do amontoado de restos de obra, então apareceu uma miúda gira que o olhou encantada, pegou nele com cuidado e levou-o para um sítio cheio de tintas e restos de outras coisas. Limpou-o e deu-lhe tinta e brilho, encheu-o de terra preta, cheia de sementes e plantinhas. Deu-lhe um novo alento! Nunca mais iria ter aturar cus e pipis em cima dele. Era agora uma bonita floreira. Tinha uma nova vida. 

 

 

 

Mensagem da história: é sempre possível sairmos da merda, basta encontrarmos as pessoas certas.

 

 

 

 

Para mais informações:

bidé é um objeto sanitário, com o formato de um bacia oblonga, para lavagem das partes inferiores do tronco (partes íntimas) assim como os pés, que pode incluir uma pequena ducha, na qual há um misturador para água quente, fria ou ambas que lança, no sentido vertical.

Bidé' é uma palavra que vem do francês, bidet, uma invenção francesa do final do século XVII ou no começo do século XVIII, embora não se saiba exatamente a data e o inventor.

A mais antiga referência escrita de que se tem notícia a respeito do bidé data de 1710.

 

 

 

Alice Alfazema

As pessoas não querem trabalhar

Fevereiro 17, 2018

Alice Alfazema

 

 

Porque eu preparei-me para não ter de viver com o salário mínimo. Os meus pais preparam-me para isso. Falo quatro ou cinco línguas estrangeiras, sou conhecedor de um conjunto de matérias. Se não trabalhasse em Portugal trabalhava em qualquer outro país.

 

Pedro Ferraz da Costa, setenta anos de idade...

 

 

Outras pessoas que hoje têm a idade dele e que também viviam em Portugal:

 

 

«À hora que vos escrevo o dia está maravilhoso, um sol benéfico espalha os seus raios acariciadores através dos encantadores campos desta risonha aldeia. Sentado ao ar livre num recanto sossegado desfruto a beleza e a graça desta tarde e contemplo um rancho numeroso de rapazes e raparigas que no mais vivo entusiasmo se dedicam à faina da colheita da azeitona. Neste momento chegou junto de mim um amigo, mas dos verdadeiros que acaba de regressar do Sabugal e que me diz: então já sabia que desta vez segue mais pessoal para França?
– Sim?!
– É verdade. Encontrei hoje no Sabugal mais de vinte Casteleirenses a tratar dos seus papéis para saírem. Dizem que ganham lá muito dinheiro…
Repliquei:- Se assim continuamos daqui a pouco não há quem cuide das terras (…) lembrei-me que esta gente se ausentaria certamente porque a agricultura não lhes compensava tantos trabalhos, que se sentiriam desiludidos com a terra e os seus produtos. Realmente a situação do trabalhador rural é pouco animadora e por isso começa a sentir desprezo à terra e ao viver da aldeia e procura ausentar-se em demanda de nova vida, de vida que lhe garanta um futuro mais seguro e cómodo.
(…)
»

 

 

Não estudaram no Colégio Alemão, mas na lama francesa.

 

 

Os pais não lhes deram oportunidade de aprender várias línguas, porque a maior preocupação era matar a fome.

 

 Fotografias Gérald Bloncourt, por uma vida melhor...

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

A tua corrida começa quando choras pela primeira vez...

Fevereiro 17, 2018

Alice Alfazema

 

As pessoas surpreendem-se a cada dia que passa, ficam admiradas com a rotina que se instala, perplexas com as rugas que acumulam no rosto. Pensam que são diferentes, mas revêem-se nos padrões que se instalam nas conversas do dia-a-dia.

 

 

Os mais velhos dizem que antigamente é que era bom, os novos descobrem as brejeirices como uma nova forma de estar. Nalguns meios a escrita criativa é a promessa de sermos diferentes. Noutros a imagem corporal e os trapos que tens vestidos. O tom de voz assume carisma. A passividade é um mal dos excluídos. Temos culpa de sermos donos de vidas miseráveis. O preconceito é um presente embrulhado com um bonito laço vermelho e coberto de palavras elegantes e ditas de forma harmoniosa. Há orações para isso. 

 

 

Olham-se ao espelho e tiram fotografias de forma a ficarem únicos. Único é apenas o dia de hoje. Colocas no teu prato uma folha de alface recortada e isso torna a receita especial, apesar de a salada de alface ter sido uma inovação que já contêm fungos devido há humidade dos anos que passaram por ela. A tua salada é especial. Tu és especial. És bom. És capaz. És tudo aquilo que quiseres. Depende de ti, força. Tu és tudo aquilo que encontrares pela frente e és o conjunto das pessoas a quem te juntares. 

 

 

Somos padrões formados pelas experiências daquilo que vivemos. Ocultos. Sem cor. A mandar recados. Sem querer saber. A pensar nos outros. Revoltados. Libertos. Alegres. Sisudos. Velhos. Semi-velhos. Plastificados. Amigos de gente fina. Escumalha. Ladrões. Altruístas. Somos uma longa metragem. Uma novela mexicana. 

 

 

A tua corrida começa quando choras pela primeira vez. 

 

 

Ilustrações  Ricardo Solís

 

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

Micro contos - O homem dos óculos

Fevereiro 15, 2018

Alice Alfazema

O homem está no café, sentado num banco alto rente ao balcão, traz nas mãos um aparelho tecnológico, passa o tempo a clicar nas páginas electrónicas. No rosto uma barba grisalha, uns óculos a meio do nariz. Olha para o ecrã com um ar de sabedoria, carregando aqui e ali com a ponta do dedo indicador, ao de leve, com delicadeza, enquanto conversa com os demais ao redor. De vez em quando olha para baixo depois para cima, depois para baixo. Interrogo-me sobre o que está a ver com aquele olhar sereno...baixo o olhar e dou um relance nas imagens...são gajas boas, gajas boas meus amigos.

 

 

Alice Alfazema

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