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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Leitos rugosos

Fevereiro 25, 2015

Alice Alfazema

árvore.JPG

 

Serão os braços da Árvore Neptúnica

metamorfose de um feto abrindo

as flores do Éden nas mãos da criança.

 

Os dias, lentos,

baloiçam o fruto.

 

O poema 

percorre leitos rugosos

salta despenhadeiros

encosta o rosto às falésias

e vem poisar suavemente

na foz do símbolo.

 

Poema é sulco na terra,

raiz agarrada ao branco

de uma folha imaginária

na árvore dos dias por viver

 

Maurícia Teles, in Sonho de Vidro

 

Alice Alfazema

O dragão

Fevereiro 22, 2015

Alice Alfazema

Imagem daqui.

 

Não acordes o dragão, mantém-te em silêncio e sossegado, não dês nenhum passo, nunca acordes o bafo daquele que te chateia,  vive na paz do dragão, quando tiveres perto da tua morte verás que nada disto que foi dito sobre o dragão terá valido a pena. Vive.

 

Alice Alfazema

 

Imaginação

Fevereiro 18, 2015

Alice Alfazema

Ilustração Camilla d'Errico 

 

Num mundo sem arte, as cores teriam pouco ou nenhum valor, apenas serviriam para chamar a atenção. No desprezo pela arte e pela imaginação perdemos um dia-a-dia motivador, ao perdemos isso começamos a perder a nossa auto-estima e nela se vão todos os nossos desejos. Vemos assim como está este nosso mundo, com uma perda gritante de imaginação, onde muitos nos levam a pensar que existem apenas os caminhos que nos são indicados por eles, quem passas a ser se deixares que outros escolham por ti? Que país é este que leva a espinha numa curvatura doida. Os velhos que estão no poder, já têm tanto bolor que nem um dia escaldante de Sol os consegue regenerar. Perderam a cor e o brilho e arrastam discursos de treta. Vejo nalguns o espelho de outros que conheço pessoalmente, teimosamente reinantes, apesar de gagás querem manter-se na cadeira, bebendo água do Luso, aspirando o cheiro dos ramos de flores sobre a mesa, ostentam os sapatos bem engraxados, e as frases banalizadas que dizem, conseguem que recorde os aromas de um funeral. Vejo os presidenciáveis e eis-me de novo nesse aroma.  Pudessem as melancias se transformarem em borboletas e tudo seria mais fácil. 

 

Alice Alfazema

Uni-verso

Fevereiro 17, 2015

Alice Alfazema


Ilustração Catherine G McElroy

 

Se o Universo,
une o Verbo,
une o verso,
mistura o inverso do avesso
do mundo externo...

 

Se estamos imersos num mundo interno
repleto de infernos e invernos
Estamos enfermos em formas quadradas,
projetadas e padronizadas?
Ou somos criaturas criadoras,
receptivas e receptoras,
que harmonizam nossas próprias vibrações coloridas
junto ao arco-íris?



Às vezes penso, como os egípcios,
o homem é um prisma transparente
e sua vida é a escolha das sete cores, ou espectros,
ou vibrações...
A Luz há de brilhar.
o diamante há de polir-se.
E o homem pinta, canta,
dança, nos caminhos da luta,
para um dia emanar
a luz áurea lilás.

 

Hermeto Marcius

 

Alice Alfazema

As palavras de Luísa Dacosta

Fevereiro 16, 2015

Alice Alfazema

 

 

Vou deixar aqui estas palavras, para que não morram, para que sejam levadas e compreendidas, para que as vozes de fêmea se oiçam e as suas perspectivas sejam relacionadas com o socialmente imposto nesta sociedade, ainda, machista. 

 

Lamento sair desta vida bastante desiludida. Por exemplo, em relação à alegria com que festejei o fim da II Guerra, a pensar que nunca mais havia guerras, e que vinha aí a solidariedade, a democracia e a liberdade para todos. Mas não. Estamos num mundo criminoso em que 70 por cento da população mundial não tem acesso à água, à comida, à saúde, à educação. Sobretudo, incomoda-me partir com a certeza de que a parte mais esmagada deste mundo é a mulher. Isso dói-me.

As palavras são sementes. São valiosas, provocam e despertam reacções, movimentam mentes.

 

Tenho uma grande admiração pela figura de Cristo, que acho uma figura extraordinária, muito interessante. Normalmente as religiões estão ligadas a aspectos políticos, mas a figura de Cristo não está. É uma figura independente do social e do político. É uma doutrina puramente espiritual. Há uma grande capacidade de dádiva e perdão, que é o que me interessa mais. A igreja não me interessa nada. A igreja, com Constantino, tornou-se uma religião de Estado, o que é um crime. Uma religião de Estado é uma coisa aberrante.

Aquilo que fazemos interessa. Olhar o outro, despertar para um mundo melhor, acreditar. Tantas vezes desperdiçamos a nossa energia naquilo que nos torna tristes, tantas que poderíamos transformar isso numa força de impulso positivo. 

 

A vida ensinou-me que não podemos viver sozinhos. Ensinou-me que não podemos viver sem o bafo humano e que devemos fazer tudo para lutar por isso.

Devemos aproveitar as palavras e com elas bailar. Acreditar não é uma coisa lamechas, acreditar é poder transformar.

 

Texto retirado do Jornal Expresso.

 

Alice Alfazema

 

 

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