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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Viagens

Abril 28, 2014

Alice Alfazema

 

Ilustração Claudia Tremblay

 

podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa, 

não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal, 

mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal 

é um caso em que não custa aprender à nossa custa: 

variamente na vida e na ascese se flibusta, 

e aprender à nossa custa é muito mais ascensional. 

 

podes subir até ao miradouro se a altura não te assusta: 

lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional, 

podes subir sozinho, há muito espaço experimental. 

noutros elevadores há sempre alguém que barafusta, 

mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta, 

e em lisboa é o único a subir na vertical. 

 

no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta, 

luzindo à noite numa memória intensa e desigual. 

com o cesário dorme a última varina, a mais robusta. 

não é para desoras o elevador de santa justa, 

arrefece-lhe o esqueleto de metal. 

mas tens o dia todo à luz do dia. não faz mal. 

 

 

Vasco Graça Moura
Alice Alfazema

40 anos de Abril

Abril 24, 2014

Alice Alfazema

Hoje é véspera de Abril, daquele de 74, do século passado, do milénio passado, aquele de há quarenta anos. Os cravos estariam murchos se resistissem até hoje, mas os cravos renovam-se, vermelhos, a cada ano. 

 

Naquele tempo eu era pequena, tinha ainda mãos pequeninas, não sabia de nada, apenas ouvia conversas e músicas que se repetiam. Nesse dia lembro-me da mão da minha mãe apertando a minha, com força, não pude subir a ladeira a correr e fomos para casa, os vizinhos vieram conversar e contar as notícias daquilo que acontecia.

 

Hoje eu sei que ganhei. Como mulher ganhei um outro papel social, ganhei escolhas que posso fazer sem pedir autorização. A sociedade modificou-se, apesar de ainda existirem raízes que querem florescer, no entanto, agora podemos escolher, podemos mudar, podemos se quisermos!  E isso é Abril!

 

 

Alice Alfazema

Da Terra

Abril 22, 2014

Alice Alfazema

 

Da Terra vem o sopro que torna os sons em música. Do sopro, destilado nos pulmões, vibram melodias, que saem através do ar quente que se espalha na água condensada que se liberta numa dança de sons. O bocal brilha coberto de ouro que vem das entranhas da Terra, o som vibra no espaço com o sopro que vem das entranhas do músico. 

 

Ao meu filho: beijos.

 

 

Alice Alfazema

Aleluia

Abril 19, 2014

Alice Alfazema

 

Madalena
Quedaram, frio o sangue, as mulheres chorosas, 
Sem cor, sem voz, de espanto e medo. E, de repente, 
Caíram-lhes das mãos as ânforas piedosas 
De bálsamo odoroso e de óleo recedente. 
 
Enfeitiçou-se o chão de um perfume dormente, 
E o arredor trescalou de essências capitosas, 
Como se a terra toda abrisse o seio, e o ambiente 
Se enchesse da jasmins, de nardos e de rosas. 
 
E Madalena, muda, ao pé da sepultura, 
Tonta da exalação dos cheiros, em delírio, 
Viu que uma forma, no ar, divinamente bela, 
 
Vivo eflúvio, vapor fragrante, alva figura, 
Aroma corporal, pairava... 
como um lírio, 
Num sorriso, Jesus fulgia diante dela. 


Olavo Bilac
Alice Alfazema

 

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