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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Meninas e meninos

 

Pintura de Alyona Krutogolova


 

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira

Era o mesmo que roubar o vento e sair

correndo com eles para mostrar aos irmãos.


A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.


O menino era ligado em despropósitos.


Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.


Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria

o mesmo que carregar água com a peneira


No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.


O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

 

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro o

botando ponto no final da frase.

 

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.


O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.


A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.


Você vai carregar água na peneira a vida toda.

 

Você vai encher os
vazios com as suas peraltagens

 

e algumas pessoas
vão te amar por seus despropósitos. 

 



Manoel de Barros


 

Alice alfazema

Quero ter asas

 

Ilustração Alberto Ruggieri


Perdi a cor dos cabelos. Talvez, as nuvens sejam as culpadas. De tanto andar com a cabeça nas nuvens a cor esvoaçou.

 

 

Aquela nuvem
parece um cavalo…

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?
Mas já não é um cavalo,
É uma barca à vela.

Não faz mal.
Queria embarcar nela.

Aquela?
Mas já não é um navio,
é uma torre amarela
a vogar no frio
onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.
Quero ter asas
para a espreitar da janela.

Vá, lancem-me no mar
donde voam as nuvens
para ir numa delas
tomar mil formas
com sabor a sal
- Labirinto de sombras e de cisnes
No céu de água-sol-vento-luz
concreto e irreal…


José Gomes Ferreira



Alice Alfazema

Equilíbrio

 

"Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira tarefa de educador é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar. Baden-Powell, o que fez nessa conferência célebre foi exactamente isso, o exigir que se ponha diante das pessoas um objecto que vá muito além daquele que lhe possibilitam as suas forças.

Ele queria, para todos os rapazes e para todas as moças, quando chegassem a essa idade, uma educação que lhes temperasse a vontade, não mais gente na rua vendo gente passar, não mais gente encostada pelas portas dos cafés, não mais gente de 20 anos vergonhosamente desocupada, passando todo o dia sem fazer coisa nenhuma, fraquíssima de carácter, fraquíssima de corpo, esperando que chegue o tempo de jantar para que chegue o tempo de dormir para que chegue o tempo de se levantar"


Agostinho da Silva, Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade [1961], in Textos e Ensaios Pedagógicos II, pp.26-27.




Alice Alfazema

Bordados pela Paz

Bordar é um passatempo para uns, trabalho para outros, no entanto também pode ser notícia, passagem de mensagem, dádiva. As mãos amparam a vida e a morte. As mãos estendem os abraços. As mãos criam violência. As mãos transformam. 

 

 

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.



Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.



E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.



De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

 

 

Manuel Alegre

 

 

 

 

Quando pensamos que o mundo se resume à nossa rua, estamos apenas espreitando para o quintal.

 

 

Este é um projecto que podem ver em Bordamos pela Paz

 

 

Alice Alfazema

 

 

 

 

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