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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Um sorriso

Abril 28, 2013

Alice Alfazema



Creio que foi o sorriso, 
o sorriso foi quem abriu a porta. 
Era um sorriso com muita luz 
lá dentro, apetecia 
entrar nele, tirar a roupa, ficar 
nu dentro daquele sorriso. 
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.



Eugénio de Andrade


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Alice Alfazema

Bonecas

Abril 27, 2013

Alice Alfazema

 

Fotografia retirada daqui

 

Quando eu fiz dez anos ofereceram-me uma boneca. Tinha cabelos aos caracóis - cabelo verdadeiro. Olhos azuis, feitos de um material que parecia vidro. Longas pestanas. Brincos nas orelhas. Quando inclinava a boneca ela fechava e abria os olhos. A cara era tão perfeitinha. Escolhi esta boneca em Viana da Castelo. No meio de tantas outras, escolhi esta. Escolhi-a pela roupa, porque de cara eram todas iguais. Hoje, não me lembro da roupa, mas da cara. Tinha medo de brincar com ela, não a fosse eu estragar. Não sei que lhe fiz. 

 

 

Alice Alfazema

Várias vozes a mesma história

Abril 25, 2013

Alice Alfazema

 

 

A todos, uma velha história. A cada dia um novo rumo.

 

Nas histórias a que chamam verdadeiras cada um mente segundo lhe convém...

 

Rodrigues Lobo


As mentiras sucedem-se, todos os dias.


 

Ar livre! Que ninguém canta com a corda na garganta...

 

Miguel Torga



A censura de hoje cresce com o medo.


A medo guardo confissão, segredo.

Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.

Que já me querem cego, surdo, mudo.


José Cutileiro


Meias palavras, meios recados, meias mentiras.


Ah o Medo vai ter tudo

(Penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente

o que o medo quer)


Alexandre O´Neill



As vidas, os actos, os factos. A visão diária.


Como escutar amor laranja esterco

carência coração

se em volta das palavras há o cerco

de tudo o que não são?


José Carlos Ary dos Santos



A invasão de tudo pelos valores económicos. 


Os ratos invadiram a cidade

povoaram as casas e os ratos roeram

o coração das gentes.

Cada homem traz um rato na alma.

Na rua os ratos roeram a vida.

É proibido ser rato.


Manuel Alegre



A vida continua. A cada dia 24 horas. 


Mas quando nos julgam bem seguros,

cercados de bastões e fortalezas,

hão-de ruir em estrondo os altos muros

e chegará o dia das surpresas.


José Saramago


Que queres que faça? Movo-me.


Cuidado com esses capitães...são ainda muito novos para se deixar comprar...


Marcelo Caetano


O que dizes?


Falo do instante, do momento feito de horas

em que o tempo se suspendeu solene

enquanto se esvaía a noite da repressão

e a manhã clara nascia, incandescente.


Carlos Loures


Que madrugada é esta?


Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitámos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen


O sofrimento. Antes. Agora.


Para colher um cravo, meu general, desfolhou o nosso povo os pés nos tojos e nos cardos.


Mário Castrim


Quando a conquista de Abril?


É um lindo sonho pra viver

quando toda a gente assim quiser...


José Mário Branco



Nas mãos estão as acções das mulheres e dos homens. A cada acção morre a inércia. Afasta o medo. Ocorre a criatividade. Resulta a energia. As histórias não são velhas nem novas, são histórias, factos transformados por vozes, pelas vozes. 


 

Alice Alfazema

 

Perguntas

Abril 23, 2013

Alice Alfazema

 

De que cor são as coisas banais? De que cor é o quotidiano? A amizade? Ou o amor? Qual a cor do medo? Da justiça? Da fome? Da guerra? Ou da Paz? Haverá razões que têm cor? Haverá momentos a sós?



O sonho é ver as formas invisíveis 

Da distância imprecisa, e, com sensíveis

Movimentos da esperança e da vontade,

Buscar na linha fria do horizonte

A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -

Os beijos merecidos da Verdade.

 

Fernando Pessoa

 

 

Alice Alfazema

O dia da Terra

Abril 22, 2013

Alice Alfazema

Os dias são todos da Terra, por ela passam os rios e os mares. O Sol e a Lua. O vento e a chuva. Relâmpagos. O calor e o frio. A morte e a vida. As cores e as flores. As árvores. Os peixes. As aves. As serpentes. Os linces. Os lobos. Os gatos. As osgas. As formigas. E os outros. E os outros.





O búfalo com chifres de prata

poisa no nenúfar 

no nenúfar do exílio

búfalo ou borboleta

 

Jorge Lauten



Alice Alfazema

Colarinho encardido

Abril 21, 2013

Alice Alfazema

Eu compreendo perfeitamente quem trabalha dando exercício ao corpo, eu própria já o fiz. Já trabalhei muito, numa linha de produção, durante seis meses. No entanto, o trabalho que tenho agora cansa-me mais, vocês podem descansar o corpo que no outro dia estão recuperadas, com a cabeça não é o mesmo.


- O que eu gostava de ter um emprego assim.

- Mas, ganham uma miséria!

- Então, mas não levam nada para fazer em casa.

- (E as dores? Ficam no trabalho?)


Agora, em algumas empresas existem cacifos especiais para as pessoas que trabalham de forma não intelectual deixarem os seus cérebros e as dores. No fim da jornada podem recolhe-los sem prejuízo dos mesmos.

 

Vejam o burro, Camaradas

Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa

Tem quatro pernas de andar aos saltinhos

Duas orelhas ouvidouras de ouvir tudo bem

Dois olhos espertos cheios até às lágrimas de paciência

O nariz do focinho muito fresco e macio.

 

O burro é burro, Camaradas?

Quem diz que é burro e despreza este companheiro?

Quem quiser ofender-me não me chame de burro

Quem quiser ofender-me não seja tão amável!

Quem quiser ofender-me inventa outra palavra

Porque chamar-me burro lembra-me burro mesmo

E não posso magoar-me com simpatia.

 

Não estou a defender o amigo útil somente

Não estou a pensar bem deste que faz o seu esforço e puxa

Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte assim.

Há coisas desde companheiro para pensar melhor e espalhar.

Falo agora somente só pela simpatia.

 



Mutimati



Alice Alfazema

A ousadia da pele e do osso

Abril 20, 2013

Alice Alfazema

 

Imagem daqui

 

Anda por aí meio mundo preocupado com a celulite, que apesar de magras as modelos, neste caso brasileiras, têm celulite. Dizem-se chocados. O que mais me choca é a extrema magreza e conseguir imaginar a fome e o sacrifico destas mulheres.  Esta foto foi tirada num conceituado desfile de moda em 2013.  Poderá ela ter sido inspirada em Auschwitz?

 

O tempo vai passando, os anos, as décadas, os séculos e os milénios. E o tempo vai passando, depressa, devagar, rápido, na mesma.

 

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,

Fundado numa rocha, à beira mar...

Donde se avistam lívidas colinas,

E se ouve o vento nos pinhais pregar.

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

 

Nesse triste palácio inabitável,

As janelas sem vidros, contra os ventos,

Batem, de noite, em coro miserável,

Lembrando gritos, uivos e lamentos.

Nesse triste palácio inabitável...

 

Só resta uma varanda solitária,

Onde medra uma flor que bate o norte,

Sacudida de chuva funerária,

Lavada de um luar branco de morte.

Só resta uma varanda solitária...

 

Como nessa varada apodrecida

Em minha alma uma flor também vegeta...

Toda a noite de ventos sacudida,

Íntima, humilde, lírica, secreta,

Como nessa varanda apodrecida...

 

Gomes Leal




Alice Alfazema

 

 

Ânsia

Abril 17, 2013

Alice Alfazema


Na semana passada um pardal entrou na minha cozinha, já era noite e o esquentador estava acesso, mesmo assim, o pássaro saiu de dentro dele ileso, não sei como, mas saiu. Escapou à panela que estava ao lume e voou pela casa. Apanhamo-lo. Fizemos, então, de uma caixa de papelão a sua casa de dormir, não mais se mexeu. 


No outro dia, bem cedo, na hora em que os pardais acordam e se espreguiçam, levámos a caixa para a rua, nenhum movimento lá dentro. Na rua o chilrear dos pardais ecoava no ar. O sol sorria. Mal abri a caixa um vibrante par de asas deu um salto para o céu. Veloz, voou em direcção às árvores e eu fiquei ali a olhar aquela vontade de liberdade. 




Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade 
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!




 Antero de Quental, Redenção.




Alice Alfazema

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