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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Portugal e os outros


Fotografia Tó Mané, Nazaré 2013

 

Tenho pena que sejam os outros a dizerem que temos um mar maravilhoso. E são também os outros que dizem termos um sol magnifico e uma sabedoria centenária. E ainda, são os outros que gostam de cá morar, e acham esta terra misteriosa, maravilhosa e abençoada. Os de cá acham que não valem nada, que não sabem nada, e esperam, e esperam e desesperam. Acordai ó almas! Acordai, que se faz tarde!

 

 

Alice Alfazema

Tratamento para a depressão

 


 Pintura de Marie Bashkirtseff

 

Ao lembrar-me do tratamento para a depressão ocorre-me também os tratamentos para as doenças da velhice e ainda a dependência pelos subsídios. Em todos os casos não se tratam as causas, mas apenas os sintomas. Nos três casos as pessoas são levadas a pensar que são incapazes de desenvolver capacidades para ultrapassar os seus obstáculos. Se na depressão o uso de fármacos é a alternativa, já na velhice é a própria fase da vida que é tratada como uma doença. Quanto aos subsídio dependentes a estratificação social encarrega-se de os envolver nas suas malhas levando-os a pensar que são uns incapazes. Se em todos os casos houver tendência para a depressão, qual será o tratamento para as  suas causas?

 

Se eu fosse Oxalá mandaria essa moça se vestir de cores e pintar a sombrinha com bolas coloridas. Pintaria um sorriso em seus lábios e dançaríamos ao vento. 

 

Oxalá mandaria tratar das causas combatendo os obstáculos, e diria que da vida fazem parte todos os dias, os da infância, os da juventude, os da velhice. Para cada um deles há uma sabedoria diferente. Oxalá sabe que há sempre um dia após outro, não tem pressa só tem convicção.

 

Alice Alfazema

No balneário

O balneário pode revelar subtilmente as diferenças entre a escola pública e a escola privada. Imaginem então, duas escolas uma pública e uma privada. O jogo foi interessante. Sem percalços. Acabado o jogo a malta sai para o balneário. Cada equipa para o seu.  Vestem-se e perfumam-se, ambas as equipas não tomam banho. Saem desejando um bom fim de semana. No rescaldo da limpeza apurou-se que no balneário da escola privada os perfumes eram divinos, enquanto no da escola pública havia um intenso cheiro a AXE.

 

 

 

 

Pormenor esquecido, a escola pública ganhou 10 a 0.

 

 

 

Alice Alfazema

Valorização

O estômago, os pés e a boca discutiam acaloradamente sobre a importância de cada um e sobre a sua força. Os pés constantemente que, graças a eles, o estômago podia mover-se e deslocar-se. Se eles se negassem, que iria fazer o estômago?

 

E o estômago respondia: "Amigos, embora isso esteja certo, se eu não vos desse alimento, não me poderíeis levar nem fazer nada".

 

E os pés e o estômago, um depois do outro, dirigiam-se à boca e disseram-lhe: " E tu, se não falares, para que serves? Não digas que por se dar muita importância à palavra, és mais que nós".

 

A boca, ao sentir-se interpelada e quase desprezada deste modo, disse:

 

"Vê-se bem que não vedes nada! Se eu não deixasse passar a comida, nenhum de vós valeria nada".

 

A cabeça, que não queria intervir, ao ver a discussão, cada vez mais acalorada, disse aos três: "Como se vê não tendes cabeça. Tendes todos a mesma importância. Cada um depende dos outros dois. Quanto melhor cada um funcionar, melhor irá tudo. Até eu dependo de vós. E gosto de depender de todos. Quanto mais convencida estiver que necessito de vós e de que todos precisamos uns dos outros, mais cabeça tenho. E quanto mais cabeça tiver, mais valorizarei cada um de vós".

 

 

Alfonso Francia - Otília Oviedo



Alice Alfazema

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