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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Elevação

Outubro 31, 2012

Alice Alfazema

 

Já não estou em cima do rochedo...

Embebi-me na Tarde,

embebi-me na paisagem,

embebi-me no que eles vêem e no que eles não vêem mas eu vejo,

e tão leve me fiz,

tão para longe do rochedo aonde já não estou,

que o rochedo ficou só

e eu distanciei-me na paisagem,

na Tarde,

na brandura da aragem...

 

Ausentei-me de aqui, de corpo e alma,

diluí-me na paisagem, 

e a rocha ficou vazia,

com ar, só ar,

com ar, só ar, em cima dela.

Ora porque será que estou ainda a vê-la,

a Tarde,

porque será que a vejo como, de cima do rochedo, a via,

se eu afinal já não sou ela?...

 

 

Sebastião da Gama




Alice Alfazema

Uma pergunta por dia: O país aguenta mais austeridade?

Outubro 31, 2012

Alice Alfazema


"Estamos neste momento em insustentabilidade e o que precisamos, senhor ministro, não é de um Governo honradinho, porque este país não tem mais disponibilidade para discursos salazarentos. O que nós precisamos, senhor ministro das Finanças, é de um Governo que diga a verdade e que defenda o país perante a 'troika' e que diga de uma vez por todas, em nome de Portugal, em nome dos portugueses, que esta estratégia não resulta".


João Galamba, 30 de outubro de 2012




Uma pergunta por dia até ao final do ano, quem quiser responder esteja à vontade.



Alice Alfazema

Refunde-te

Outubro 29, 2012

Alice Alfazema

 

eu refundarei?
tu refundarás?
ele refundará?
nós refundaremos...
vós refundareis!
eles refundarão?

  

quando eu refundar,
quando tu refundares,
quando ele refundar...
quando nós refundarmos!
quando vós refundardes!
quando eles refundarem... 

 

refunda tu!
refunde ele!
refundemos nós?!
refundai vós!
refundem eles!!!!!

 

não refundes tu!
não refunde ele!
não refundemos nós!
não refundeis vós?
não refundem eles???
 

 
Alice Alfazema

A folha da memória

Outubro 27, 2012

Alice Alfazema



Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.


A outros versos chamei eu já as últimas recordações de minha vida poética. Enganei o público, mas de boa fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa.


Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos!

Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no estio e no Outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro.


Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções.


Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público. Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar.


Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa?


Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e o mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho o olhos abertos, ao menos agora.


Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.


Enfim, eu não queimo estes. Consagrei-os Ignoto Deo. E o deus que os inspirou que os aniquile se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu.


Ainda assim, no Ignoto Deo não imaginem alguma divindade meia velada com o cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.


Imaginação que porventura não se realiza nunca. E daí quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza, e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele.


Logo o poeta é louco porque aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais longa.


Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito , que, tendendo ao seu fim único, a posse do ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chagar a ele - ora ri amargamente porque reconhece o seu engano - ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã.


Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele.


Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria.


E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte.


Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta.



Almeida Garrett



Alice Alfazema

Uma pergunta por dia: O que é um emprego digno?

Outubro 27, 2012

Alice Alfazema

Há uns dias atrás, numa reportagem televisiva um senhor que estava desempregado dizia que queria um emprego, mas que fosse, um emprego digno. Pus-me a pensar, será que o meu emprego é digno? Talvez não, pois recebo tão pouco, sendo que, é um trabalho em permanente construção, nunca falado nos canais televisivos, jornais ou revistas.


Uma pergunta por dia até ao final do ano, quem quiser responder esteja à vontade.




Alice Alfazema

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