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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Restos de praia

 

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte - 
Os beijos merecidos da Verdade. 

 

 

Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado.

 

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu

 

 

 Pedaços de poemas de: Fernando Pessoa


 


Alice Alfazema

 

Recordações



A peregrinação de um pensamento,
que dos males fez hábito e costume,
tanto da triste vida me consume,
quanto crece na causa do tormento.

 

Leva a dor de vencida ao sofrimento;
mas a alma está, de entregue, tão sem lume
que, elevada no bem que haver presume,
não faz caso do mal que está de assento.

 

De longe receei, se me valera,
o perigo que tanto à porta vejo,
quando não acho em mi cousa segura

  

Mas já conheço (oh, nunca o conhecera!)
que entendimentos presos do desejo
não têm remédio, mais que o da ventura.

 

 

Luís Vaz de Camões 

 

 

Alice Alfazema
 

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