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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Boa vontade

Março 30, 2011

Alice Alfazema

 

 

 

Pintura de Rosina Wachtmeister

 

 

 

Nem no mundo, nem, em geral, fora dele é possivel pensar nalguma coisa que possa considerar-se boa sem restrições a não ser uma boa vontade.

E a boa vontade não é boa por aquilo que efectua e realiza, não é boa pela aptidão para atingir este ou aquele fim proposto; é boa somente pelo querer, isto é, é boa em si mesma.

 

 

Kant

Um pouco de prata

Março 29, 2011

Alice Alfazema

 

 

 

Uma vez um homem rico com inclinação para a avareza visitou um rabi, que lhe pegou pela mão e o conduziu a uma janela.

- Olha lá para fora - disse o rabi -, o que vês?

- Vejo homens, mulheres e crianças.

O rabi voltou a pegar-lhe na mão, mas, desta vez, levou-o a um espelho.

- O que vês agora?

- Vejo-me a mim.

Então o rabi disse:

- Repara! A janela é de vidro e o espelho é de vidro também. Mas o vidro do espelho está coberto de prata. Basta um pouco de prata para que deixes de ver os outros e passes a ver-te apenas ati.

 

 

 

Oliver Wendell Holmes

Faz um ano

Março 28, 2011

Alice Alfazema

Hoje, este blog faz um ano, um ano que foi vivido intensamente, onde, houve pontes de alegria, tristeza, encontros e desencontros; um ano que, apesar de tudo, foi positivo, encorajador e gratificante.

Obrigado a todos os que por aqui passaram.

 

Bem hajam, pela vossa visita e comentários. 

 

 

 

 

 

 

  Pintura de Bruno Braddell

 

 

 

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

 

 

Fernando Pessoa

 

Eu diria antes: construir o caminho que me leve até onde eu queira ir...

 

Alice A.

Mundo minúsculo

Março 27, 2011

Alice Alfazema

 

 

 

 Pintura de Ana Felix Garjan

 

 

Quando se deixa de ter confiança nas pessoas e se acha que tudo é mau, é chegada a altura de alargar o seu próprio mundo, pois, pensar assim é: viver num mundo minúsculo e restrito, onde não se criou espaço para que outros entrassem.

 

Alice A.

Palavras anónimas

Março 26, 2011

Alice Alfazema

As palavras escritas por anónimos são, ou pouco valorizadas, ou nada valorizadas; quando este texto circulou como sendo de Mia Couto, choveram comentários elogiando as palavras e o seu conceito, perfeito e perspicaz, afinal, o texto pertence a outro autor e as opiniões já não são o que eram. Um pormenor que se traduz naquilo que é a sociedade; seguidores que, não tem ideias próprias que, só avaliam o que julgam ser importante, ou que lhes forneça meios de subida naquilo que pretendem. Uma sociedade para crescer saudavelmente tem que se desenvolver por igual modo e, valorizar e, ouvir as mais diversas ideias, pois, daí advirão criatividade que, proporcionará saídas e oportunidades para, um maior número de pessoas. É essa diversidade que nos faz falta; é conhecer outras caras e outras vozes - a cidadania.

 

Este é o autor: Assobio rebelde

 

Estas são as palavras:

 

 

"Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma!Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca. Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço? ".

Mãe, o que é: ser carenciado?

Março 26, 2011

Alice Alfazema

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos nove anos:

 

- Mãe, o que é: ser carenciado?

 

- Ser carenciado é: não ter condições financeiras; não ter dinheiro suficiente para: comprar comida, roupa, enfim, para viver…

 

- A C. é carenciada, não paga a refeição na escola, eu pago, mas ela tem TRÊS telemóveis e, um daqueles de tocar com os dedos; tem sempre roupa nova; eu, não tenho nada disso – o que sou eu?

 

-…

 

O que me incomoda para além de tudo é: aquilo que os adultos transmitem aos jovens e crianças; quando um pai/mãe dá valores falsos aos filhos e, mostra e demonstra que mentir é solução para muitas situações.

 

O que poderá esse pai/mãe – cidadão - esperar do estado social, ou politico onde vive?

 

 

Alice A.

Janela da quimera

Março 25, 2011

Alice Alfazema

 

 

 

 

Tu que acreditas

que a bruma vai rasgar-se em dia aberto

Tu que acreditas

que o vento vai quebrar-se em mar de calma:

porque ficas sentado à janela da quimera,

porque não vens para a rua

provocar a Primavera?

 

Vem,

vem desenhar o futuro na morte deste presente;

Vem,

vem mostrar a madrugada e vem dá-la a toda a gente!

 

Tu  que adivinhas

que as nuvens vão desfazer-se em azul.

Tu que adivinhas

que a noite resolver-se em luar:

porque te deixas dormir na cama da tradição,

porque não fazes do sonho

o grito duma canção?

 

Vem,

vem transformar o amor até hoje inexistente;

Vem,

vem construir a cidade e vem dá-la a toda  a gente!

 

 

 

 

Vieira da silva

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