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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Libelinha Dourada

 

 

 

Uma libelinha vaidosa e que sabe o que quer, resistiu aos focos de luz, a um espirro...aos gritos dos miúdos, lançou-se ao ar por três vezes mas não desistiu de posar para a foto e por três vezes pousou no mesmo sítio, incrível...parecia até dizer:

 

«Se as pessoas vivessem a vida de trás para a frente, seria assim: as pessoas deveriam primeiro morrer e, assim ficariam logo livres disso. Em seguida, viveriam vinte anos num asilo. Ao atingir a maturidade, deixariam o asilo, ganhariam um relógio de ouro e arranjariam um emprego. Depois de trabalharem por uns quarenta anos, até ficarem suficientemente jovens, viria a reforma.

Daí, iríamos para a faculdade, experimentaríamos drogas, álcool, iríamos a festas, até nos prepararmos para o liceu. Depois do secundário, viria o primário e seriamos crianças, poderiamos brincar, não ter responsabilidades. Daí, toda gente seria bébé de novo, voltaria ao útero, passaria os últimos nove meses flutuando e terminaria como um brilho no olhar de alguém.»

 

Não sei quem é autor deste pequeno grande texto, mas a libelinha que já foi a ninfa que viveu e morreu noutro corpo, que para uns é considerada um simbolo de mudança e beleza e para outros tem nomes pouco dignos da sua pessoa... poderia sem dúvida dizê-lo.

O grito da gaivota

" Dei  vários gritos, muitos gritos, autênticos gritos.[...], porque queria ouvir a minha voz e os sons não chegavam até mim." 

"Eu dançava toda noite com o meu corpo colado aos balaústres da pista, vibrando ao ritmo da música."

 

" Quanto a mim, não sei o que é barulho. Nem silêncio. São duas palavras sem sentido."

 

 "Vejo como poderia ouvir.

Os meus olhos são os meus ouvidos.

Tanto escrevo como falo por gestos.

As minhas mãos são bilingues.

Ofereço-vos a minha diferença."

 
 

in,O Grito da Gaivota, Emmanuelle Laborit

Desta Margem

 
Desta Margem

Desta margem
D'onde o céu se abre largo
Em arco sobre o rio
A esta hora
Em que o tempo hesita e pára
Deixando-se ficar
A esta hora
Tão singular
De mágicos torpores
Estendo os olhos
Bebo aos meus amores
E deixo-me levar

 

Deixo-me ir
À flor das águas
Assim como que vai,vai
Tão tranquilo
Sem destino
Enquanto a noite cai
Como quem
Sem outro rumo
Ou direcção
Se deixasse assim levar
P'lo coração

 

Vai de viagem
Ninguém sabe p'r'onde vai
Vai sem bagagem
Nem direcção
Sai sem destino
Quando a noite cai
Sobre esta margem
Do coração

 

A esta hora estranha hora
Em que tudo pára
Só minh'alma teima e voa
Do meu peito pra fora

 

Deixo-a ir
Na maré
De outras fantasias
Já se perde
Na espuma de outros
Noutro lugar.

 

 

 

Composição: Paulo gonzo
 

Voar...

Quando comecei a escrever aqui, fiz um paragrafo na minha vida, procurei outros modos de dizer o que penso, quer seja através de histórias, músicas, frases ou reflexões minhas ou de outros, simplesmente porque gosto. Escolhi um nome que me lembra perfumes de infância e de momentos felizes. 

Tenho dificuldade em compreender as pessoas que nunca mudam, e por vezes sinto-me muda quando falo com elas. Sempre que escrevo

aqui, lembro-me daqueles a quem falo, e que não me ouvem, que muitas vezes até me acham criança(quanto mais envelheço, mais gosto de  me sentir criança, é uma fase tão boa da vida... que não quero desligar-me dela!)... lembro-me daqueles que pensam que as depressões da vida se curam só com comprimidos, e os tomam como se fossem boias de salvação, para o imenso vendaval de emoções em que vivem... Lembro-me que deveriam fazer terapia da escuta, porque quando se perde a capacidade de escutar, perde-se também a capacidade de aprender e aprender é mudar e crescer.

Escrever, é uma forma de aliviar a sensação, de desgaste e inutilidade, que sinto, quando não posso mudar o outro, de fazê-lo ouvir, que desistir não é solução, pode até parecer ser o lado mais fácil, mas é a atitude mais ferrugenta.

 

Sinto-me aqui, como as aranhas pequenininhas, que voam sobre oceanos, leves...leves...e que não sabem onde vão parar, é bom escrever sem compromissos com as palavras, é bom não desistir apenas mudar...

 

 

Se observarmos as plantas, podemos resolver muitos problemas existenciais, elas(as árvores) estendem as suas raízes e experimentam novas sensações e sabores...Qualquer pessoa pode fazer isto são atitudes de crescimento, é deixar-se ir sem estar à espera...é não estar agarrado ao sofrimento de um só assunto, às paixões funestas e impossíveis...ao choro, às lembranças dos actos dos outros, do que poderíamos ter feito...daquilo que se quer desesperadamente...isto são reticências de frases de vida que prolongam o sofrimento inutilmente.

Há que fazer um ponto final em histórias repetitivas, e o melhor é fazer um ponto final paragrafo, mudar o assunto e incluir muitos outros. Os livros, as viagens, um animal de estimação, um novo visual, fazer desporto, dieta, mudar de perfume...são optimos começos de frases que podem crescer para textos maravilhosos.

Bloquearmo-nos num só assunto é não dar asas à imaginação, é jogar aos dados sempre com o mesmo número, é gostar sempre da mesma fruta, é ver o mesmo filme vezes sem conta, é um universo obscuro sem estrelas nem Sol.

Quem não conseguir perceber, observe as crianças. Elas têm medo de perguntar? Não, porque sabem que desta forma aprendem. Têm medo das opiniões dos outros? Não, isso até nem lhes passa pela cabeça, fazem porque querem, porque gostam, porque lhes dá alegria. Preocupam-se com desculpas? Não, dão asas à imaginação.

Se mudar é dar asas à imaginação, é pois tempo de fazer um ponto final paragrafo e mudar de assunto.

 

 

Alice Alfazema

 

Fazer o que ainda não foi feito

 
Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram
Quando por dentro eu sei que choram
Sabes de mim
Eu sou aquele que se esconde
Sabe de ti, sem saber onde
Vamos fazer o que ainda não foi feito

Trago-te em mim
Mesmo que chova no verão
Queres dizer sim, mas dizes não
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

E eu sei que dói
Sei como foi andares tão só por essa rua
As vozes que te chamam e tu na tua
Esse teu corpo é o teu porto, é o teu jeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

Sabes quem sou, para onde vou
A vida é curva, não uma linha
As portas que se fecham e eu na minha
A tua sombra é o lugar onde me deito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Tens uma estrada
Tenho uma mão cheia de nada
Somos um todo imperfeito
Tu és inteira e eu desfeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito

E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais

Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais

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No cabeçalho, pintura de Hiroe Sasaki.

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