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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Eu sou...

Junho 18, 2010

Alice Alfazema

"Eu sou a Rita, tenho onze anos, vivo com a minha ama, antes vivia com a minha avó mas ela arranjou namorado e foi viver para outro sítio. Não sei do meu pai e a minha mãe vive longe."

 

"Eu sou o Rui, o meu pai é drogado e bebe bastante, a minha mãe é maluca. Eu também bebo, não passo um dia sem o fazer, tenho quatorze anos. Às vezes sou feliz."

 

"Eu sou a Ana, tenho quinze anos, vivo numa instituição, mudo muitas vezes de localidade. A minha vida é como uma linha de comboio, tem muitas estações. Nâo quero viver com os meus pais, mas tenho saudades deles."

 

"Eu sou o Manuel, tenho treze anos, tenho más notas e não gosto de ir às aulas. Os meus pais batem-me por tudo e por nada mas eu vingo-me e na escola faço o mesmo."

 

"Eu sou o Cristiano, tenho doze anos, cá em casa não temos àgua e falta comida.Gosto de ir à escola porque é onde tenho comida e tomo banho no ginásio, a stora dá-me champoo."

 

"Eu sou a Maria, tenho quinze anos, gosto de ouvir música e de estar com os amigos.Não gosto de ir para casa, pois há muitos gritos e pancada.Quero ser feliz."

 

"Eu sou o Luís, tenho dez anos e cinco irmãos, tenho amigos que me trazem comida e roupa, a minha mãe trabalha muito mas ganha pouco. Quero crescer depressa para a ajudar."

 

"Eu sou o Zé, tenho quase quinze anos e sou vaidoso. Só vejo os meus pais à noite, mas durante o dia falo com eles ao telemóvel. Tenho tudo o que quero, mas falta-me o abraço dos meus pais."

 

"Eu sou a Susana, tenho dezasseis anos, há muito tempo que vivo em instituições, os meus pais abandonaram-me. Às vezes sou feliz. Quero ser modelo."

 

... 

 

  

...Eu sou aquele que todos sabem que existe e muita gente finge que não vê.

 

 

 

 

Carta para um/a adolescente

Junho 12, 2010

Alice Alfazema

Quando nasceste, desde a tua  concepção foste desejado, amado, pensado e imaginado, com amor e carinho.

Nasceste, foste lavado, vestido, acarinhado e mimado. Levas-te colinho quando fazias birras e chucha quando querias dormir. A comida preparada com carinho e cuidado, o cabelo penteado com esmero. Abraços que retribuíam amor, sentido por todos, risos e gargalhadas, idas à praia e a descoberta de novos mundos. As mãos que te conduziam e que tu tanto confiavas e querias que apertassem as tuas, para juntos sentirem o calor da amizade que nos unia. 

O tempo passou e o ciclo interminável da vida, que não pára de girar, encarregou-se de te mudar.Transformou-te o corpo, moldou-te novas formas e a voz, e implacavelmente mudou-te o pensamento. Deixas-te de querer dar abraços e julgas que te odeiam, que todos estão contra ti. Parece que só tu és o dono da verdade. As mentiras são fáceis e úteis, e tu usá-las com frequência, demasiada, porém necessária para conseguir essa tua fachada de adulto que sabe tudo.

Continuas o mesmo, apenas o corpo mudou, as experiências que precisas de fazer, para crescer como indivíduo, não te deve de impedir de ser amável e carinhoso, para com aqueles que sempre o foram contigo. A tua revolta cega-te e magoas, sem veres que te estás a magoar tambéma a ti. Pensa antes de agir ou reagir, o tempo não pára, mesmo que queiras. A necessidade de te afirmares não é sinónimo de arrogância e egoísmos. Para passares de lagarta a borboleta tens de confiar naqueles que te guiaram nos teus primeiros passos que de certeza foram inseguros e difíceis. Estás numa nova fase em que o caminho muitas vezes terá de ser percorrido sozinho o que não invalida que se possam pedir e ouvir conselhos de quem nos ama. A decisão será tua, pois essa caminhada só tu a podes fazer, mas ela não tem de ser dolorosa, nem para uns nem para outros.

Lembra-te que alguém que te ama gostaria de ouvir, obrigado, por me abraçares, por trabalhares para me dares comida e por te preocupares comigo. Tu és um pedaço deles, das suas memórias da sua carne e sangue, do seu amor e carinho...Do seu tempo. És um pedaço das suas noites mal dormidas, dos seus choros e risos tu és tudo para quem te ama, porque não podes ser comprado em qualquer loja...não podes ser recriado...Porque és único!

 

Alice A.

 

PS- Não deixes para amanhã o abraço que podes dar agora.

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

Junho 11, 2010

Alice Alfazema

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,

A força, a arte, a manha, a fortaleza;

O tempo acaba a fama e a riqueza,

O tempo o mesmo tempo de si chora;

 

O tempo busca e acaba o onde mora

Qualquer ingratidão, qualquer dureza;

Mas não pode acabar minha tristeza,

Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

 

O tempo o claro dia torna escuro

E o mais ledo prazer em choro triste;

O tempo, a tempestade em grão bonança.

 

Mas de abrandar o tempo estou seguro

O peito de diamante, onde consiste

A pena e o prazer desta esperança.

 

                      Luís de Camões

 

Feliz

Junho 03, 2010

Alice Alfazema

Ser feliz é...

A soma de muitas felicidades, a felicidade não existe no singular.

É sentir o sol...

o cheiro do mar...

o riso dos filhos,

dos amigos,

pintar um desenho...ler, escrever,

comer, beber,

ir para o emprego,

ir para casa...

sentir o vento, o calor e o frio

viajar...pensar, falar e ouvir

é dar e receber

perdoar e pedir desculpa

perder e ganhar

rir e chorar

Ser feliz é dar valor aquilo que nos preenche, às experiências nossas e dos outros...

É liberdade dentro do pensamento... 

dar cor ao sonho e asas à vida...

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