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Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Sobre os cães perigosos ou não

Eu tenho um cão, o Ginjas, tem seis quilos de peso, de altura mais ou menos trinta centímetros. É um rafeiro com ares de podengo anão. É um refilão. Tudo serve para ladrar, tem personalidade própria, não é portanto um boneco lindo e fofinho, parece mas não o é. 

ginjolas.jpg

 

Quando o levo à rua vai sempre com a trela, coisa que ele detesta, pois vai constantemente a mordê-la e a refilar. Já mordeu a médica veterinária, fiquei roxa de vergonha, comprei-lhe um açaime  para usar nas consultas, não quero que volte a fazer o mesmo, a culpa foi minha.

 

#perfectlive.jpg

 

As brincadeiras com o dono é um fartote de dentadas a fingir, só sabe brincar assim, não é cão de lambidelas e festinhas sem fim. Quando chegamos a casa faz-nos sempre uma recepção de arromba, é ladradelas, é andar nas duas patas traseiras, até lhe darmos festas, se voltamos a sair e regressamos uma hora depois ele recebe-nos da mesma forma. Gosta do meu colo, mais do que sofá. É louco por torradas com manteiga. E deita-se cedo, basta dizer-lhe que está na hora da caminha, aí vai ele para a sua almofada. 

 

ginjas1.jpg

 

É natural que ele não goste de toda a gente, todos nós temos pessoas das quais não gostamos. Por mais que digam que os animais são irracionais, não acredito nisso. Ele sabe quando estou triste ou quando estou alegre. Tem saudades nossas. Reconhece pessoas que já não vê há muito tempo. Pede carinho. Dá carinho segundo a sua versão do mesmo. Respeita-nos enquanto dormimos. Sente-se parte da família. Ele é livre de gostar de quem quer. Eu gosto que seja assim. Eu tenho um cão, não um boneco.

 

 

Alice Alfazema 

 

 

Conversas da escola - Amigas no Facebook

Uma miúda pequenina aproxima-se do balcão do bufete, no dia anterior tinha-me pedido amizade no Facebook, olha para mim e pede-me qualquer coisa, mas tenho dificuldade em perceber porque o tom de voz é muito baixo. Pergunto-lhe:

 

- Então, Maria queres ser minha amiga no Facebook?

- Porque é que queres ser minha amiga no Facebook?

- Então?

 

 

Alice Alfazema

Setúbal - 25 de Abril de 1974, o povo saiu à rua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se te disserem que um gorila salvou a tua irmã
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde não adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista

 


Pela primeira vez
Sê guardião-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao quilómetro dezassete
E se afoga a virtude em cântaros de água
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As árvores crescem e tu com todas
Fora do pedúnculo
Junto à terra

 

 

 

Zeca Afonso

 

 

Imagens do Arquivo Américo Ribeiro. Câmara Municipal de Setúbal, retiradas da página do Município de Setúbal.

 

 

 

Alice Alfazema

 

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